Caso tenha interesse em ouvir as perguntas separadamente, cada uma delas acompanha o áudio específico. Para ouvir o áudio completo do programa, utilize esta opção:
São Paulo que Piratininga reconhece, quatro séculos depois de Nóbrega e Anchieta, o valor da semeadura evangélica em seu solo que continua a produzir flores e frutos para o reino de Deus na Terra. O labor mediúnico de Chico Xavier na seara do Cristo, sempre em estreita ligação com São Paulo e os paulistas, é assim proclamado em alto e bom som pela gente de Piratininga de maneira oficial e pública, como um bem moral do patrimônio espiritual de São Paulo. Católicos, protestantes, evangélicos, espíritas, crentes e descrentes foram unânimes em reconhecer a grandeza espiritual de uma vida de abnegação em favor da espiritualização de nosso povo. Caíram as barreiras de divisionistas, desapareceram os preconceitos diante da realidade de uma obra de amor. Este é um sinal dos novos tempos, um clarão da era do espírito a iluminar os corações do planalto. Como no tempo de Nóbrega e Anchieta, as tribos de Piratininga se reúnem fraternas em torno do futuro.
Os caciques Tibiriçá, Caiuby e Piquerobi trazem seus homens para deporem arcos e flechas aos pés da nova era no limiar do amanhã. Nóbrega hoje, transfigurado em Emmanuel, abençoa de novo os campos de Piratininga. Seus olhos espirituais enevoados pela saudade contemplam o panorama dos arranhas céus da cidade gigante que nasceu do humilde colégio de São Paulo de Piratininga envolvido na garoa paulistana de há quatro séculos. A árvore do Evangelho abre suas ramagens de bênçãos no céu de São Paulo.
No Limiar do Amanhã, um programa desafio. Produção do grupo espírita Emmanuel, transmissão número 98, segundo ano. Direção e participação do professor Herculano Pires.
Este programa é transmitido neste dia e neste horário, todas as semanas pela Rádio Mulher de São Paulo 730kz, pela Rádio Morada do Sol em Araraquara 640kz, e pela Rádio Difusora Platinense de Santo Antonio da Platina, Paraná, 780kz. Todas as semanas neste dia e neste horário.
Perguntas e respostas. Faça suas perguntas por carta ao programa No Limiar do Amanhã escrevendo para a Rádio Mulher, Rua Granja Julieta 205, São Paulo. Não faça relatórios, faça perguntas. Se quiser use os telefones: 269.4377 e 269.6130 durante a semana no horário comercial para fazer as suas perguntas, e ouça as respostas pela Rádio Mulher de São Paulo, pela Rádio Morada do Sol de Araraquara, e pela Rádio Difusora Platinense de Santo Antonio da Platina, no Paraná.
Pergunta nº 1: Alan Kardec
Locutor - Professor o ouvinte Guilherme Pieralini, da Rua Caçador, Vila Paiva, São Paulo, quer saber o verdadeiro nome de Allan Kardec e a cidade onde nasceu.
J. Herculano Pires - O verdadeiro nome de Alan Kardec é Léon Hippolyte Denizard Rivail. Geralmente se fala no meio espírita “Riveu”, mas a verdade é que essa pronúncia é errada. A pronúncia certa é “Rivail”. E Allan Kardec nasceu na cidade de Lion na França.
Locutor - Segunda pergunta: Por que o senhor disse que São Marcos não conheceu Jesus Cristo em vida?
J. Herculano Pires - Não me lembro de quando falei isso, mas talvez tenha sido quando tratei da maneira por que foram escritas e do tempo por que foram escritos os Evangelhos. Porque na verdade o evangelho de Marcos não pertence, como em geral se pensa, a um apóstolo de Jesus e sim a um discípulo de Pedro.
Marcos, discípulo de Pedro, foi quem, de acordo com a tradição e com as pesquisas atuais a respeito da elaboração das escrituras evangélicas, foi quem escreveu em Roma o evangelho que deu seu nome e que foi ditado por Pedro, ou pelo menos que Pedro transmitiu ao seu discípulo Marcos as informações para que ele escrevesse esse evangelho. Certamente foi nessa ocasião que eu falei que Marcos, esse Marcos discípulo de Pedro, não tinha conhecido Jesus em vida.
Locutor - Professor o ouvinte Antônio Lara, da Rua Ungária, Vila Ipojuca, Lapa, faz o seguinte comentário: O senhor Olegário Candeias no programa do dia 09/12/72 refere-se à alimentação carnívora como um fanático. Em defesa dessa sua tese anti-carnívora aponta o profeta João, como exemplo, e diz que o referido profeta não comia carne, mas se vestia de pele de camelo (Marcos, I:6). É lógico que para usar couro de camelo ele teria que abater o animal. Portanto, o crime é o mesmo. Concordo com o senhor quando diz que o comer ou o deixar de comer é questão de evolução.
Agradeço a atenção deste programa e principalmente ao senhor.
J. Herculano Pires - De minha parte agradeço seu interesse pelo programa chegando ao ponto de nos enviar um pequeno comentário a respeito daquilo que foi dito pelo nosso companheiro Olegário Candeias. E digo companheiro do ponto de vista de doutrina, que Candeias é espírita.
Na verdade, Candeias é bastante entusiasmado na sua campanha a favor da alimentação vegetariana. Ele tem muita pena dos animais que são sacrificados constantemente para que nos alimentem. E eu tive a oportunidade de dizer na ocasião que na verdade alimentação carnívora é bastante cruel (nós todos sabemos disso), mas não podemos evitá-la porque nós pertencemos ainda a um plano bastante inferior. Há muitas pessoas que querem deixar de comer carne e não podem, porque o seu organismo exige essa alimentação em virtude da necessidade de suprimentos de proteínas, que as proteínas de natureza vegetal não com seguem completar.
O senhor Candeias informa, por exemplo, que as proteínas vegetais em certos cereais como na soja são mais elevadas, estão em maior quantidade do que na própria carne. Mas o problema não é a quantidade e sim a possibilidade de assimilação pelo nosso organismo. De maneira que o senhor Candeias tem o direito de defender os animais que a maioria da humanidade mata e come. Mas a maioria da humanidade também tem o direito de continuar matando e comendo porque a sua situação evolutiva atual não permite que ela se abstenha dessa alimentação.
“O Livro dos Espíritos”, como indiquei na ocasião, não determina absolutamente que nos restrinjamos à alimentação vegetariana. E dessa maneira nós temos que compreender que no espiritismo não há proibição de espécie alguma a respeito disso.
A verdade é que a alimentação carnívora ou a alimentação vegetariana toda ela tem de se reunir, por assim dizer, num conjunto alimentício para poder suprir as condições de necessidade da humanidade atual em nosso planeta.
Seria, portanto, uma tentativa muito louvável do ponto de vista ideal, mas impraticável do ponto de vista da execução verdadeira, o restringir-se a alimentação humana apenas ao campo vegetariano. Podemos ver o que se passa ainda hoje na própria Índia, onde tradicionalmente a alimentação de carne é proibida, mas em que Indira Gandhi, ainda recentemente, desenvolveu uma grande campanha para restabelecer a alimentação carnívora em face da fome que avassala grandes regiões onde a alimentação vegetariana não é suficiente.
Locutor - Professor, Dona Maria José casou-se no dia 04/12/71 e o marido trabalhou até o dia 28/01/72. Depois deste último emprego não conseguiu mais nada até a presente data. Sua esposa quer saber se é por não ter desenvolvimento mediúnico.
Quando estava noiva, foi ao centro espírita e disseram que ia se casar, mas sua vida seria atrapalhada enquanto não se desenvolvesse na vida espiritual. Por este motivo quero o nome de um bom centro, se realmente for este o caso.
J. Herculano Pires - O problema do desenvolvimento mediúnico é um problema que se relaciona aos compromissos espirituais da criatura que vem para a reencarnação. Quando nós trazemos a missão mediúnica para a Terra, precisamos naturalmente desenvolver as nossas faculdades mediúnicas para cumpri-la, mas isso não se relaciona evidentemente com os problemas de compromissos familiares que naturalmente pesam sobre os ombros de seu marido. Não será por falta de desenvolvimento mediúnico que ele deixará de encontrar, ou que ele não encontrará emprego.
A verdade é que este desenvolvimento – se ele realmente tem a missão mediúnica aqui na Terra –, esse desenvolvimento o auxiliará a equilibrar-se melhor na vida, a compreender melhor os problemas referentes ao próprio cumprimento de suas obrigações na vida diária. O auxiliará, enfim, a criar um ambiente mais favorável em seu redor, em torno dele, da família, da casa, para o prosseguimento de sua vida e o cumprimento de suas obrigações aqui na Terra.
Mas se ele não tem mediunidade a desenvolver, o desenvolvimento mediúnico forçado seria até prejudicial, porque ele não conseguiria mesmo passar a atuar como um médium. Eu acho que a senhora deve separar inteiramente as duas coisas. O seu marido, se está em dificuldade para procurar emprego, isto pode ser uma prova muitas vezes de ordem passageira e pode ser também uma situação em que, diante das coincidências em que ele se encontrou, esteja em dificuldade também efêmera, porque logo ele deverá encontrar. Numa cidade como São Paulo e um homem com certas habilitações como ele tem não demorará muito a encontrar o seu emprego.
Quanto ao fato de haverem dito, portanto, que enquanto não se desenvolvesse na vida espiritual ou a senhora também não se desenvolvesse assim não encontrariam uma situação satisfatória na vida, aí nós podemos distinguir dois elementos.
Primeiro, essa obrigatoriedade de desenvolvimento espiritual, ou seja, de se seguir o esclarecimento necessário para uma vida espiritualizada, decorre da nossa própria encarnação na Terra. Todas as criaturas estão sujeitas a isso. Então, a senhora e o seu marido procurando esclarecer-se no espiritismo e procurando segui-lo, frequentando um bom centro, uma boa reunião espírita a que possam comparecer, estarão se beneficiando e beneficiando seu próprio futuro, a sua própria casa, a sua própria família. Mas isso não quer dizer que a senhora tenha de fazer isso para atingir este resultado.
Quando tratamos de coisas espirituais, nós devemos sempre compreender que esses problemas do espírito se referem ao nosso próprio destino como criaturas humanas. E não devemos encará-los de um ponto de vista apenas utilitarista.
Acredito que a senhora, tomada das mais nobres intenções, deseja mesmo que seu marido se encaminhe no ramo da espiritualidade. E se a senhora se interessa pelo espiritismo eu lhe aconselharia a levá-lo, a ir com ele naturalmente, a um centro espírita onde se adaptem, onde se sintam bem. Há numerosos centros aí mesmo no seu bairro e há centros na cidade, há centros vários. Eu não poderia indicar no momento para a senhora um centro aí no seu bairro, mas acredito que a senhora poderá se informar com pessoas que frequentam entidades espíritas, instituições espíritas, e encontrar o seu caminho.
A indicação de um centro é sempre no sentido de se apontar para aquele que quer iniciar-se nos problemas espirituais um caminho mais acertado a fim de que não se encaminhe para um centro mal organizado. Eu no momento não disponho de elementos para lhe dar essa indicação, mas a senhora irá naturalmente informar-se e deverá frequentar um bom centro, porque isto ajudará a senhora e seu marido a compreenderem melhor inclusive as provas pequenas ou grandes que todos nós temos de enfrentar na vida. Não apenas no início da vida, como a senhora está enfrentando, mas também no correr de nossa existência.
Eu sei que a senhora já entrou em entendimento pessoal com pessoa de minha família a respeito disto e que já recebeu ou deve receber dois livros que lhe foram dados. Aconselho a senhora a ler estes livros com atenção e carinho que eles também lhe auxiliarão bastante a compreender a sua situação.
Locutor - A pergunta seguinte é de uma ouvinte que também se chama Maria José. Maria José Campos, residente na rua Pontaporã, no Alto da Lapa.
Ela pergunta: quando sua mãe a estava esperando aos sete meses, ela, a sua mãe, ouviu várias vezes a filha chorar. Procurou saber num centro espírita se isto era normal. Disseram que o espírito da criança, que era a Maria José, era muito adiantado e não queria esperar o fim da gravidez. Quer saber sua opinião diante desta, o que ela chama, de anormalidade.
J. Herculano Pires - Na verdade este é um problema que não tem o sentido que lhe atribuíram no centro. Nós precisamos ter muita cautela nessas interpretações. Há pessoas imaginosas que, de boa vontade, sem nenhuma intenção secundária, muitas vezes nos dão interpretações assim um tanto audaciosas de fatos, que na verdade não conhecem, mas que não são tão incomuns, como está pensando.
Este problema de crianças que nascem antes de nascer é um problema que pertence mais aos especialistas no assunto. Mas segundo estou informado, não se trata aí de nada extraordinário.
Assim como a criança faz certos movimentos no ventre da mãe antes de nascer, ela está viva, dá os seus sinais de vida, há também situações em que ela se encontra que produzem um ruído semelhante a um gemido choro ou de criança.
Não é, portanto, nada de anormal nem de extraordinário.
Locutor - Professor o ouvinte José de Oliveira, cunhado do Jorge Interlang, da Casa Dimas, em Santo Antônio da Platina, Paraná, pergunta: Tenho vinte e cinco anos, sinto-me só e em difícil situação, pois apesar da pouca idade, estive em tratamento psiquiátrico várias vezes. Não encontro solução para o meu caso. Depois de tantos tratamentos em sanatórios, clínicas de repouso, resolvi não procurar médicos da Terra e por este motivo, passei a frequentar um centro espírita. Peço-lhe solução ou palavras de conforto para o meu problema, pois sinto-me bastante perturbado.
J. Herculano Pires - Ora, vivas, um consulente de Santo Antônio da Platina! Quero dizer, temos agora mais correspondentes lá no Paraná. Estamos às ordens de todos os nossos ouvintes de Santo Antônio da Platina e receberemos com muita satisfação todas as perguntas que nos enviarem. A cidade de Santo Antônio da Platina, segundo as folhinhas que nos chegaram de lá e que noticiamos no programa anterior, nos apresentam um panorama realmente fascinante, dá-nos um desejo de ir passar uns dias na sua tranquilidade, na beleza tranquila dos seus campos, ou no encanto dos seus morros, principalmente aquele que está numa de suas praças como fundo do panorama da praça.
Ao senhor José de Oliveira, cunhado do Jorge Interlang, da Casa Dias, bem situado, portanto, perante aos platinenses. Ao senhor Jorge, ou melhor, José de Oliveira, cunhado do Jorge, nós temos a dizer o seguinte:
O senhor já encontrou o caminho necessário para a solução do seu problema. O senhor andou por vários caminhos, mas não havia encontrado a solução desejada. Agora o senhor procurando um centro espírita – e eu desejo que seja um centro kardecista bem orientado, centro realmente espírita e não centro de sincretismo religioso afro-brasileiro, ou seja, centro de umbanda e coisas semelhantes, mas que seja um centro espírita realmente –, nesse centro o senhor estará amparado. Porque não só terá o auxílio das pessoas bondosas que ali trabalham e que procurarão orientá-lo no conhecimento de sua situação, dos seus problemas que o senhor trouxe para enfrentar e resolver nesta existência – e o senhor está em face dela, da existência cheia de vida, moço, inteligente, capaz de enfrentá-la –, o senhor não só estará amparado por essas pessoas, mas também pelas entidades espirituais que protegem, amparam e orientam os trabalhos do centro.
Entretanto, apesar disso, nós aqui no nosso programa costumamos oferecer aos ouvintes, sempre que necessário ou conveniente, um presente de irmão que é um livro espírita. Vamos lhe oferecer “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. É um presente de irmão que lhe faz este programa e a editora Lake, Livraria Allan Kardec Editora daqui de São Paulo. O livro será enviado para a Rádio Difusora Platinense em cuja sede o senhor deverá, portanto, procurar o seu presente de irmão. Pedimos que leia com atenção esse livro e que o conserve como seu livro de cabeceira, porque ele será para o senhor mais do que um livro, será um remédio.
Locutor - O ouvinte Adolfo José Soares, da Rua Iguape, em São Bernardo do Campo, pede explicação para este caso:
Em 1963, na cidade de Jequié, na Bahia, trabalhava numa panificadora no período noturno. Certa noite, quando saía para o trabalho, viu em frente de sua casa um homem parado como se estivesse à sua espera. Com medo, voltou para casa e disse à sua esposa o que se passara.
No momento seguinte ouviu vozes na rua, saiu para ver o que estava acontecendo quando deparou com dois homens que, avistando-o, seguiram caminho. Resolveu segui-los, mas seu espanto foi total quando desapareceram como por encanto. Até hoje está confuso com esse fato e gostaria de ouvir do senhor uma explicação convincente.
J. Herculano Pires - De acordo com os termos dessa sua pergunta, seria difícil a gente responder. Mas parece que o senhor escreveu uma carta para nós antes dessa e eu me lembro de bem que nessa outra carta o senhor falava que ouve vozes na sua cabeça e que o senhor costuma enxergar, de vez em quando, dois homens, mas que o senhor somente os vê pelas costas e que eles de repente desaparecem. Ora, este acréscimo feito anteriormente a essa pergunta, nos auxilia a compreender o que o senhor está querendo saber. O senhor quer saber se na realidade se trata de um fato mediúnico ou não. Pois, eu posso dizer que se estas vidências, estas visões, continuam realmente a ocorrer com o senhor como ocorreram no passado, o senhor possui mediunidade a ser desenvolvida, mediunidade de vidência. O senhor deve, portanto, procurar conhecer isso.
Quando o senhor diz aqui que o homem que o senhor viu na rua o assustou, o senhor não explica porque ele o assustou. Mas baseado na sua carta anterior, eu posso dizer que ele o assustou porque o senhor viu que não era uma criatura humana, carnal. Quando nós vemos um espírito, como o senhor viu, geralmente nós sentimos um sinal, uma espécie de arrepio que é uma advertência do nosso inconsciente, do nosso interior, da nossa percepção mais profunda, mostrando-nos que não estamos diante de uma visão concreta do mundo físico em que vivemos, mas sim de uma visão do outro mundo, do mundo espiritual.
Então o senhor sentiu isto, e foi isso que lhe deu medo. Realmente o medo acontece nessas ocasiões.
Depois, dentro de casa, o senhor ouviu vozes, mas as vozes na rua não seriam suficientes para atrair o senhor lá fora. O que aconteceu foi que o senhor ouviu as vozes na sua cabeça, como o senhor disse na carta anterior, e essas vozes da sua cabeça foi que o preocuparam. O senhor saiu para ver o que estava na rua. E o que o senhor viu foram dois homens que caminhavam, que o senhor somente os viu pelas costas, não pôde reconhecê-los e eles, como sombras, desapareceram na noite.
Pode verificar lembrando bem tudo que aconteceu que foi realmente isso que sucedeu com o senhor. Pois bem, isto tudo está indicando que o senhor devia acompanhar estes dois homens para se dirigir a um centro espírita. O senhor precisa ir a um centro espírita; tomar conhecimento do espiritismo e ler, ler e estudar bastante. Para isso vamos lhe oferecer um presente de irmão, o livro “Iniciação Espírita” de Allan Kardec. É um presente de irmão deste programa e da Editora Edicel. O senhor retirará este livro a partir de segunda-feira no horário comercial, no escritório da Rádio Mulher à Avenida Barão de Itapetininga, 46, 11º andar, conjunto 1.111, sempre no horário comercial.
Faça suas perguntas por carta ao programa No Limiar do Amanhã, escrevendo para Rádio Mulher, Rua Granja Julieta, 205, São Paulo. Não faça relatórios, faça perguntas. Se quiser use os telefones: 269.4377 e 269.6130 durante a semana no horário comercial para fazer suas perguntas, e ouça as respostas pela Rádio Mulher de São Paulo, pela Rádio Morada do Sol de Araraquara, e pela Rádio Difusora Platinense de Santo Antônio da Platina, Paraná.
Perguntas e respostas.
Pergunta nº 8: Simbologia da cepa
Locutor - O ouvinte Edvaldo, da Rua Mestras Frias Filipinas, em Itaberaba, capital, faz as seguintes perguntas.
Primeira: Explique-me melhor a questão dos “Prolegômenos” do “O Livro dos Espíritos” que diz: O corpo é o ramo, o espírito é a seiva, a alma ou espírito ligado à matéria é o laço. Aqui nesta resposta parece que ficou esquecida a tese do perispírito.
J. Herculano Pires - Eu não tenho no momento “O Livro dos Espíritos” aqui, não posso ler com exatidão aquilo que está escrito nos “Prolegômenos”, ou seja, na introdução desse livro para responder ao senhor com segurança item por item dessa explicação.
Kardec, entretanto, colocou ali uma explicação sobre a cepa, o pequenino ramo de parreira que é usado pelos espíritos, ou melhor, que os espíritos indicaram a ele que usasse no livro como símbolo do homem, da natureza espiritual e física do homem. Então, ali nós temos, como o senhor viu, essa explicação que me parece clara: o espírito é a seiva, o corpo o ramo, agora a alma, ou seja, o espírito ligado à matéria, é o bago, quer dizer, é o grão da uva, é a uva mesmo. Então o senhor vê que é uma simbologia apenas. O senhor não pode querer que numa simbologia desta venham todas as explicações minuciosas do que seja o laço que liga a alma ao corpo que é o perispírito. Mas quando Kardec se refere à alma, já o perispírito está implicado nessa referência porque a alma é o espírito encarnado, e o espírito para se encarnar se reveste do perispírito. Perispírito e espírito juntos constituem, portanto, a alma que anima o corpo.
O senhor vê que a simbologia, apesar de eu não ter aqui o texto completo e perfeito para poder ler de novo para o senhor, mas o senhor pode consultar no seu livro aí, e verá que ela está bastante clara.
Locutor - A segunda pergunta: Dizem que os viciados em bebidas alcoólicas são instrumentos dos espíritos que desencarnaram com os mesmos gostos. Então pergunto: Por que tais viciados não esquecem os nomes e as fisionomias dos seus conhecidos?
J. Herculano Pires - Esta sua pergunta divide-se em duas partes. Uma bastante compreensiva, bastante clara, e a outra um tanto confusa. Mas vamos nos deter um pouco na primeira parte.
O senhor diz aqui que os viciados em bebidas alcoólicas, segundo dizem, são instrumentos de espíritos que desencarnaram com os mesmos gostos ou os mesmos vícios.
Pois bem, na verdade o que o espiritismo explica é isto: que nas relações entre nós e os espíritos, nós nos afinamos, por assim dizer, quer dizer, nos sintonizamos, nos ligamos aos espíritos que têm afinidades conosco. Essas afinidades podem ser no campo do espírito, ou seja, dos sentimentos e do pensamento, e podem ser no campo da matéria, ou seja, dos nossos hábitos, dos nossos costumes, dos nossos gostos materiais aqui na Terra.
Então acontece que justamente por isso – por esta lei de atividade que preside a toda vida dos espíritos e dos homens –, por esta lei da afinidade, decorre que os espíritos viciados em bebidas alcoólicas e que ao passar para a vida espiritual ficam impedidos de bebê-las – porque eles estão numa situação diferente, num mundo diferente –, têm de desenvolver novos interesses; eles, entretanto, em virtude da viciação, não conseguem se libertar do desejo de beber; e não podendo beber por si mesmos, eles se aproximam das pessoas que bebem, se aproximam dessas pessoas e as envolvem.
Acontece que, em virtude disto, o vício da bebida não se limita apenas à viciação do indivíduo que aqui na Terra se entregou a ele. Mas também é transferido, por assim dizer, para as entidades espirituais inferiores que passam a incentivar o viciado a beber cada vez mais, e procuram através dele haurir das suas bebidas, do seu desejo de beber, e mesmo da maneira por que ele se entrega desbragadamente à bebida, procuram haurir dali os eflúvios da bebida que eles podem obter no mundo espiritual inferior onde predomina ainda muito a influência da matéria. É o que geralmente se chama de espíritos vampirescos, espíritos que vampirizam as criaturas humanas.
Este vampirismo, entretanto, não se reduz apenas ao campo da viciação alcoólica, mas de todos os demais vícios humanos, inclusive através, até mesmo, dos pequenos defeitos morais que possuímos, porque os espíritos que também os possuem, que se interessam, por exemplo, pela bisbilhotice, pela calúnia, pelo mau julgamento das pessoas, todos esses espíritos se afinam com pessoas que procedem da mesma maneira, e com isto incentivam os erros dessas pessoas aqui na Terra.
Por isso é que Jesus no seu Evangelho nos mandou orar e vigiar. Orar para nos afastarmos dos pensamentos inferiores, das atrações inferiores, sintonizando o nosso pensamento com os planos superiores. E vigiar: vigiar a nós mesmos, vigiar os nossos atos, os nossos pensamentos para não descambarmos no terreno das viciações e das perturbações que nos arrastarão fatalmente à obsessão e à perturbação espiritual.
Agora diz o senhor aqui uma coisa que eu não entendi. Diz o senhor: “Então pergunto, por que tais viciados não esquecem os nomes e as fisionomias dos seus conhecidos”. Por quê? Eu não vejo a relação que existe entre os viciados serem perturbados por espíritos também viciados e o fato de eles não esquecerem dos nomes e das fisionomias dos seus conhecidos.
Acredito que tenha havido algum erro na sua carta, ou na sua pergunta formulada, ou mesmo naquele que anotou a pergunta ou procurou interpretá-la. Eu não entendo este final, mas posso dizer ao senhor que os viciados no álcool realmente, como quaisquer outros viciados, conservam a sua memória para suas relações humanas comuns na Terra até enquanto a bebida não afeta a sua mente. Quando afetar, eles realmente não conhecerão seus conhecidos.
Locutor - Professor o ouvinte Moacir Batista de Paula da Rua Vinte e Sete, Jardim Nove de Julho, São Matheus, São Paulo pergunta:
Primeiro: como o espiritismo explica o aparecimento do homem na Terra? Estaria certa a teria de Darwin e Hugo de Vries quanto à evolução?
J. Herculano Pires - Já no programa anterior, no programa de sábado passado, nós tivemos a oportunidade de responder uma pergunta dessa minuciosamente sobre este assunto.
O espiritismo não endossa a teoria de Darwin, mas reconhece nela muito de verdade. Porque para o espiritismo, a evolução do homem começa no princípio inteligente do universo. Esse princípio junto com a matéria constituem os dois elementos fundamentais do universo. E Deus como criador é o poder superior que controla a ação e o desenvolvimento destes dois princípios, destas duas substâncias universais.
O homem provém do princípio inteligente do universo, porque ele é a inteligência, a inteligência criadora do próprio Deus que ele, por assim dizer, insuflou no universo, e esta inteligência, entretanto, tem de se desenvolver, tem de passar pelos reinos inferiores da natureza num desenvolvimento progressivo até chegar ao homem.
Assim, existe uma evolução que encadeia todas as espécies, não só as animais, como as vegetais e até mesmo as minerais existentes em nosso planeta. Essa passagem do princípio inteligente por todas essas fases de evolução é bem explicada por uma frase de León Denis que eu já repeti diversas vezes neste programa, mas que acho interessante repetir de novo neste momento. A frase de León Denis que diz assim: “A alma dorme na pedra, sonha no vegetal, agita-se no animal e acorda no homem”.
Pense bem nessa frase e o senhor compreenderá melhor o processo da criação do homem por Deus segundo o espiritismo. Mas não quer dizer, absolutamente, que um homem aqui na Terra possa hoje afirmar que ele foi um tigre, um leão, um elefante, uma girafa, um camelo, ou coisa semelhante na vida passada. Porque o homem só se torna homem quando o princípio inteligente devidamente evoluído e individualizado, já tendo despertado suas potencialidades divinas, recebe então no plano espiritual a disciplinação da sua mente para constituir a sua consciência, estruturar a sua consciência e lhe dar a personalidade humana. Então, ele, por assim dizer, manipulado pelos poderes superiores do espírito, ele vem à vida pela primeira vez como criatura humana.
Locutor - Segunda pergunta: Disseram-me que o Padre Quevedo é o maior parapsicólogo da América do Sul. Será mesmo?
J. Herculano Pires - O padre Quevedo não é parapsicólogo. O padre Quevedo é um padre, um padre jesuíta, que usa a parapsicologia como um instrumento para combater o espiritismo. Pura e simplesmente isto. O senhor pode encontrar isso nos seus livros, nos seus cursos, nas suas pregações, nas suas entrevistas, em toda parte.
O objetivo do padre Quevedo é servir-se da parapsicologia para combater o espiritismo.
Ora, um parapsicólogo é um cientista que investiga os fenômenos paranormais. Este cientista é imparcial. Ele não tem tendência favorável a nenhuma religião. E também não deve, de maneira alguma, tender para a descrença ou para o materialismo.
O objetivo da ciência é alcançar a verdade. É descobrir, portanto, num fenômeno qualquer, quais são as leis que o regem, como e por que ele se manifesta, ele se realiza, e descobrindo essas coisas, organizar a ciência que explica esses fenômenos e dá ao homem o poder de controlá-los. Esta é a finalidade da ciência.
O padre Quevedo absolutamente não faz nada disso. Ele se serve daquilo que os parapsicólogos disseram neste ou naquele livro, torce as verdades ditas por eles, modifica as posições dos próprios parapsicólogos e joga tudo isso contra o espiritismo incessantemente.
Ele é um batalhador contra o espiritismo. Não parapsicólogo.
Locutor - Segundo um colega, o padre Quevedo disse que a parapsicologia não está estudando a reencarnação, nem a sobrevivência da alma. Tais afirmativas serão verdadeiras, professor?
J. Herculano Pires - Nessa pergunta o senhor mesmo me dá oportunidade de lhe mostrar o exemplo daquilo que acabei de dizer.
Se o padre Quevedo diz que a parapsicologia não está estudando a reencarnação, entretanto, o senhor pode comprar em qualquer livraria o livro do professor Ian Stevenson, grande parapsicólogo norte-americano, diretor do departamento de psiquiatria da universidade de Virginia nos Estados Unidos. E este livro se chama: “Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação”. É um livro em que o professor Stevenson, parapsicólogo e psiquiatra, relata suas pesquisas e expõe os seus casos, os casos que ele andou pesquisando de reencarnação em todo mundo, inclusive casos pesquisados por ele aqui no Brasil. Aqui no Brasil! Este livro traduzido recentemente está nas livrarias. O senhor pode ali constatar, inclusive, que o professor Stevenson se refere a numerosos outros parapsicólogos do mundo, inclusive da Ásia, da Europa, dos Estados Unidos, que estão empenhados na pesquisa da reencarnação.
Por outro lado, o senhor sabe que esteve há pouco tempo aqui em São Paulo o professor Banerjee, Hamendras Nat Banerjee, da Universidade de Jaipur na Índia, que veio aqui para fazer conferências sobre a reencarnação. Essas pesquisas do professor Banerjee foram divulgadas pelas nossas revistas, pelos nossos jornais, por entrevistas na televisão e no rádio, e todo mundo está sabendo disso. Ora, se o padre Quevedo diz que a parapsicologia não está estudando nada disso, é evidente que ele está distorcendo uma verdade clara que todos nós estamos enxergando, que está nos nossos olhos e que está nas livrarias para qualquer pessoa que queira conhecê-la.
Locutor - Pergunta do senhor Plínio de Campos, da Rua Garcia de Ávila: Qual é a interpretação que a doutrina espírita dá para a passagem dos Evangelhos – Atos dos Apóstolos – sobre o acontecimento dramático e punitivo de que foram protagonistas Ananias e Safira? Realidade ou simbolismo?
J. Herculano Pires - Esse episódio se refere à comunidade dos apóstolos, a sua organização, quando eles estavam procurando viver de uma vida diferente daquela em que viviam os homens do tempo, reunindo-se todos em comunidade, vivendo em colaboração constante e juntando todos os seus recursos para formarem um recurso comum que devia atender às necessidades de todos.
Acontece que Ananias e Safira, segundo nos relata o livro “Ato dos Apóstolos”, eles venderam a sua propriedade e foram procurar Pedro entregando-lhe o dinheiro para o fundo comum, para o fundo da comunidade dos apóstolos. Entretanto, ao irem para lá entregar o dinheiro, eles haviam ocultado uma parte do dinheiro para conservar pessoalmente para eles. E, como nós sabemos, de acordo com o que consta o livro de Atos, Pedro percebeu isto e condenou o homem, repreendeu-o pelo fato de ele haver escondido aquele dinheiro e não contar a verdade, porque ele já estava faltando com um dos princípios fundamentais, um dos princípios morais que deviam dirigir a comunidade, que era o de não mentir, o de serem verdadeiros todos aqueles que a integrassem.
Ananias, então, estava já praticando um erro, e um erro grave. Pedro o censurou e diz o livro de “Atos” que o homem caiu morto. Logo depois vem Safira, a mulher, falando a mesma coisa, e Pedro diz que ela também estava mentindo e que o marido já havia sofrido uma punição por isso, e ela caiu morta.
Então morreram os dois. E muita gente interpreta isso como tendo sido Pedro quem os matou. Não, a verdade não é esta.
Nós sabemos que Pedro tinha, como médium que era, a capacidade de percepção extrassensorial. Pedro percebeu, Pedro descobriu no pensamento de Ananias e no pensamento de Safira, captou no pensamento deles, aquilo que eles tinham feito. Viu a segunda intenção de ambos e condenou isso. Mas acontece que os dois, ao sofrerem aquele golpe, pois de maneira alguma esperavam que Pedro pudesse saber o que eles tinham feito, eles não suportaram, emocionaram-se e sofreram naturalmente um colapso. O que se pode explicar, portanto, é que a condenação feita por um espírito superior, como era o espírito de Pedro, com a serenidade e a firmeza com que ele fez, a repreensão moral que ele aplicou a ambos tenha realmente causado emoção profunda que produziu a morte.
Então dizem “mas Pedro previu a morte”, porque Pedro disse que ela também ia morrer. Sim. Assim como Pedro foi capaz de captar o roubo que eles haviam feito, porque eles entregavam à comunidade apenas uma parte da sua fortuna e a outra parte escondiam, assim também Pedro tinha a capacidade para captar o fato de que ela ia morrer pela mesma consequência que produziu a morte do marido.
Não se trata, pois, de um fato simbólico, trata-se de uma realidade, de uma realidade registrada no livro de “Atos” de maneira sucinta, mas que nós podemos compreender facilmente se voltarmos o nosso pensamento para aquele tempo e procurarmos reconstituir mentalmente o que seria esta comunidade, a dificuldade com que os apóstolos lutavam para organizá-la e a finalidade superior que ela realmente tinha, que era de organizar a vida dos apóstolos de acordo com os princípios do Evangelho.
Todos os que, portanto, quisessem participar dessa comunidade, deviam apresentar-se ali limpos de coração e de alma. Os que não se apresentavam assim estavam sujeitos a sofrer, como sofreram Ananias e Safira, comoções que podiam ser fatais como foi no caso deles.
O Evangelho do Cristo em espírito e verdade, não segundo a letra que mata, mas segundo o espírito que vivifica.
Aberto ao acaso o Evangelho nos oferece hoje o seguinte: Atos dos apóstolos, capítulo dezessete, versículos vinte e três e seguinte. No dia seguinte levantou-se e partiu com eles e alguns irmãos de Jope acompanharam-no. No outro dia entrou em Cesareia. Cornélio estava esperando por eles, tendo reunido seus parentes e amigos íntimos. Quando Pedro ia entrar, veio Cornélio recebê-lo e, prostrando-se aos pés, adorou-o. Mas Pedro ergueu-o dizendo: levanta-te que eu também sou homem. Falando com ele, entrou e achou muitos reunidos e disse-lhe: vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou chegar-se a um de outra nação. Todavia, Deus mostrou-me que a ninguém chamasse impuro ou imundo. Por isso, sem objeção, vim logo que fui chamado.
Este episódio do livro de “Atos dos Apóstolos” é de fato um dos episódios mais interessantes de todo o relato sobre os trabalhos apostolares, porque nós sabemos que Pedro, vindo de Jope para Cesareia, ele vinha de uma grande experiência que havia sofrido em Jope. Cornélio, centurião romano, tinha em sua família vários médiuns, todos eles estavam desenvolvendo a mediunidade e Cornélio procurou então aproximar-se de Pedro, que ali se encontrava em Jope, procurando fazer com que Pedro o auxiliasse, o esclarecesse no tocante às manifestações espirituais que ocorriam na sua casa. Pedro não estava disposto a atender Cornélio. Por quê? Porque Pedro era judeu e Cornélio era romano, apesar de haver acompanhado Jesus nas suas pregações, no seu trabalho, de ser aquele apóstolo dedicado, aquela pedra sobre a qual Jesus se firmara muitas vezes aqui na Terra para o desenvolvimento do seu trabalho, e principalmente aquela pedra da revelação.
Apesar de tudo isso, Pedro ainda não se desligara dos seus preconceitos judaicos, a força do hábito, da educação, da formação judaica continuava a impedir que ele se tornasse realmente cristão. Então conta-nos o livro de “Atos” em passagem anterior que Pedro estava na casa de outro Simão – ele que era Simão Pedro, na casa de Simão – que constituída de dois andares, era um sobrado. Pedro estava no andar de cima quando chegaram os homens enviados por Cornélio para chamá-lo a fim de que ele fosse atender a família de Cornélio. Pedro não queria ir, mas neste instante estavam preparando a comida para Pedro na casa em que ele se encontrava. Pedro estava com fome, e quando os homens chegaram ali, ocorreu um fenômeno espiritual: desceu do céu uma espécie de lençol aberto em forma de um cesto, e dentro desse lençol, acomodado ali no seu interior, havia uma quantidade enorme de animais de todas as espécies.
Uma voz lhe disse: Pedro mata e come. E Pedro ficou assustado com aquilo, porque entre os animais ali expostos à sua vista, haviam muitos que eram considerados imundos pelas leis de pureza e impureza do judaísmo. Ele não podia, portanto, matar e comer aqueles animais. Mas a voz disse assim: Pedro mata e come, porque tudo quanto Deus fez é puro e não é você quem vai atribuir a impureza. Logo depois disto, esta visão desapareceu e Pedro então caiu em si; lembrou-se então dos ensinos de Jesus referentes à fraternidade humana, lembrou-se naturalmente do caso da samaritana, do caso do bom samaritano também, lembrou-se também daqueles momentos em que Jesus se sentava à mesa com publicanos e pecadores sem fazer discriminação, e compreendeu que ele estava errado e que o símbolo do lençol cheio de animais de todas as espécies queria dizer a ele que o mundo estava cheio de homens de todas as espécies, mas que todos eles eram filhos de Deus e deviam merecer a sua atenção.
Foi então que Pedro resolveu atender a Cornélio e dirigiu-se à casa de Cornélio e lá, ao chegar, ele viu que toda família de Cornélio foi tomada pelo espírito, quer dizer, os espíritos se manifestaram através dos membros da família de Cornélio que eram médiuns, deram suas manifestações, suas comunicações, e Cornélio os atendeu a todos, ou seja, Pedro os atendeu a todos na frente de Cornélio. E ficou muito satisfeito de verificar mais uma vez que Deus não fazia acepção de pessoas. Então este fato, esta cena mudou a concepção de Pedro a respeito do problema que ele vinha debatendo com Paulo, ou seja, o problema da introdução das pessoas novas no cristianismo. Para Pedro, toda pessoa que tivessem de entrar no cristianismo, deviam ser primeiramente...
[fim do áudio]
Antes da nossa reunião pública, amigos da Guanabara mostraram-nos duas reportagens recentemente lançadas sobre a eutanásia. Éramos um grupo de irmãos debatendo assuntos da atualidade e o problema proposto despertou-nos a atenção. Depois de opiniões variadas na conversação em curso, o horário nos chamou para as tarefas da noite.
Aberta a nossa reunião de estudos, O evangelho segundo o espiritismo, com surpresa para nós todos, ofereceu-nos o item 28 do capítulo V, sobre a questão da morte aplicada em nome da benevolência humana.
Diversos companheiros comentaram a lição, após o que Emmanuel, o nosso caro benfeitor espiritual, compareceu com a página Eutanásia e vida.
Programa 96
PROGRAMA 96
Caso tenha interesse em ouvir as perguntas separadamente, cada uma delas acompanha o áudio específico. Para ouvir o áudio completo do programa, utilize esta opção:
Amigos ouvintes, a batalha do espiritismo se trava muito mais no interior de nós mesmos do que lá fora. Lembremo-nos disso no correr deste ano. Deixemos que a tempestade das agressões, das confusões, das mistificações, dos desentendimentos continuem a rugir lá fora, mas conservemos a paz em nossos corações. Não a paz do mar morto, das águas paradas que formam o pântano, mas a paz dos riachos alegres cujas águas refletem a luz do sol e das estrelas correndo para o futuro.
O ano de 1973 estende-se à nossa frente como uma planície do tempo esperando nosso esforço. Aproveitemos essa nova etapa de nossa existência para construir e servir. A era do espírito foi planejada pelo grande arquiteto, mas cabe a nós todos a sua construção. Não esmoreçamos no trabalho, não espedíssemos tempo e energia com distrações inúteis, trabalhemos com alegria e com amor.
Cada qual no seu posto, cada qual com sua enxada, com o seu trator, com seu malho, com a sua pena e a sua palavra erguendo o edifício da era do espírito no coração e na consciência dos homens. Não há tempo a perder, mas enquanto construímos, sejamos vigilantes afastando material impróprio ou deteriorado, afugentando os animais daninhos, corrigindo os que não seguem a planta com devido cuidado, louvando e apoiando os que se esforçam para que o edifício seja bem construído e não corra o perigo de desabar.
Não basta construir, amigos. É preciso vigiar. Construtores e pedreiros descuidados, displicentes, sem o devido senso de responsabilidade são construtores de catástrofes, semeadores de ruínas. Jesus Cristo, nosso senhor, nos ensinou a vigiar e orar. Não basta orar, é preciso vigiar. Estejamos vigilantes em nosso trabalho, assentando as pedras do edifício da era do espírito.
No Limiar do Amanhã: um programa desafio. Produção do Grupo Espírita Emanuel. Transmissão número 96, segundo ano. Direção e participação do professor Herculano Pires.
Este programa é transmitido nesse dia e nesse horário todas as semanas pela Rádio Mulher de São Paulo 730kz, pela Rádio Morada do Sol de Araraquara 640kz, e pela Rádio Difusora Platinense de Santo Antônio da Platina, Paraná, 780kz, todas as semanas neste dia e neste horário.
Perguntas e respostas. Faça suas perguntas por carta ao programa No Limiar do Amanhã escrevendo para a Rádio Mulher, Rua Granja Julieta, 205, São Paulo. Não faça relatórios, faça perguntas. Se quiser, faça suas perguntas pelo telefone durante a semana no horário comercial discando esses números: 269-4377 ou 269-6130. E ouça as respostas pela Rádio Mulher em São Paulo, pela Rádio Morada do Sol em Araraquara, e pela Rádio Difusora Platinense em Santo Antônio da Platina, Paraná. Todas as semanas neste dia e neste horário.
Pergunta nº 1: Ajuda dos desencarnados
Locutor - Professor, o ouvinte Renato Moreti, da Rua Antônio Foster, Socorro, Santo Amaro, nos faz duas perguntas. Primeira: de que formas os parentes ou pessoas conhecidas que já desencarnaram podem oferecer ajuda do plano espiritual?
J. Herculano Pires - Da mesma maneira por que nós, nós mesmos, aqui na Terra podemos oferecer e dar ajuda do plano espiritual às pessoas que necessitam e que nos pedem. Quantas vezes somos procurados por pessoas necessitadas que rogam a nossa intervenção nos problemas com que se defrontam, certos de que a nossa atitude será benéfica para elas. Ora, nós sabemos que não dispomos, de nós mesmos, dos recursos necessários para atender a esses pedidos. Mas sabemos também que podemos elevar o nosso pensamento a Deus, pedir a ele o amparo para essas pessoas, que podemos orar, enfim, em benefício da solução dos problemas, das dificuldades, e até mesmo das doenças com que essas criaturas se defrontam. Ora, se nós, encarnados, podemos fazer isso, por que não o poderíamos fazer quando desencarnados?
Desta maneira, nós colocamos em primeiro lugar este ponto que é o seguinte: o espírito desencarnado pode perfeitamente solicitar aos espíritos superiores, através da prece, através da oração, o auxílio necessário para aqueles seus parentes e amigos que daqui da Terra apelam a eles.
Da mesma forma, porém, segundo ponto, os espíritos desencarnados, desde que já disponham de uma certa elevação, poderão através do seu próprio pensamento dar-nos boas intuições, ajudar-nos com a sua presença, com seu envolvimento fluídico ou vibratório, para que nós tenhamos mais ânimo, mais coragem no enfrentar as nossas dificuldades e os nossos problemas.
Locutor - Segunda pergunta: um espírito que já desencarnou há dois anos, se possui conhecimento, pode materializar-se com a ajuda dos mentores espirituais?
J. Herculano Pires - Todo fenômeno de materialização realizado, seja em sessões ou não, é sempre presidido por espíritos superiores. Nós sabemos – e Kardec o explica muito bem – que os fenômenos de efeitos físicos, sejam eles de materialização, de movimentação de objetos ou semelhantes, todos eles dependem da ação direta de espíritos ainda inferiores sobre objetos materiais. Sabemos também que esses espíritos inferiores apegados, portanto, ainda ao nosso plano, têm mais facilidade para movimentar os objetos e as coisas da matéria.
Justamente por isso os espíritos se servem deles, os espíritos superiores se servem deles para que os fenômenos sejam produzidos. Mas o fato de que estes espíritos que Kardec chega mesmo a classificar como sendo uma espécie de carregadores do mundo espiritual, o fato de que estes espíritos estejam trabalhando nos fenômenos de materialização e de manifestações físicas em geral não quer dizer que esses fenômenos sejam realmente produzidos por espíritos inferiores. A ação direta destes espíritos na realização dos fenômenos é dirigida pelos espíritos superiores que controlam o problema.
Assim, um espírito desencarnado recentemente, mesmo que não tenha conhecimentos necessários para agir por si mesmo na atividade plena durante a materialização, ele pode materializar-se porque será socorrido no tocante aos problemas puramente materiais pelos espíritos que servem de assistentes aos espíritos superiores que dirigem as reuniões. Então poderemos resumir assim a resposta à sua pergunta: o espírito desencarnado há dois anos, ou menos do que isso, há um ano, há um mês, há alguns dias, pode materializar-se numa sessão desde que ele esteja espiritualmente em condições de submeter-se às operações necessárias para essa materialização. Podemos mesmo acrescentar que um espírito bastante evoluído pode materializar-se momentos após a sua desencarnação.
Um fato histórico bastante importante para nós no Brasil é o da materialização de Cairbar Schutel após a sua morte, materialização esta ocorrida numa sessão em Londres logo após a desencarnação de Schutel. Este fato nos mostra, entre muitos outros, a possibilidade de materialização das entidades logo após o desencarne.
Eu queria aqui, continuando a atender as suas perguntas, se bem que já terminei as respostas, mas vejo que o senhor pede também o oferecimento de um livro e escolhe o livro “O espírito e o tempo”. Nós damos os livros aqui no programa de acordo com a necessidade de esclarecimento de certas perguntas que nos são feitas. Entretanto, vamos atender ao seu pedido específico e lhe damos este presente de irmão que o senhor pede: o livro “O espírito e o tempo”. Este espírito lhe deverá ser dado pelo programa No Limiar do Amanhã e pela editora Edigraf. O senhor pode procurá-lo, portanto, a partir de segunda-feira no escritório da Rádio Mulher, Avenida Barão de Itapetininga, 46, 11º andar, conjunto 1.111, sempre no horário comercial.
Locutor - Professor, o ouvinte Arualdo Barreto Aragão, da Rua Particular, Santa Maria, São Paulo, nos escreve agradecendo pelo livro “Iniciação espírita” e diz que está gostando muito do mesmo. Ele nos faz as seguintes perguntas: o fumo, o vício de fumar e de beber, faz parte da evolução do homem terreno. Mesmo sabendo que estamos nos envenenando com vários exemplos, de pessoas em hospitais e hospícios, o homem está se tornando escravo do vício mesmo sabendo de sua destruição, e sente-se satisfeito destruindo seus órgãos carnais. Na minha opinião, todos os viciados são pessoas que procuram prazeres artificiais fora do equilíbrio da natureza. São enjoados das coisas naturais. Portanto, peço explicações sobre consciência, compreensão e lógica.
J. Herculano Pires - O senhor fez, na verdade, uma única pergunta, mas essa pergunta implica realmente em outras.
Quando o senhor fala do problema do vício, o senhor diz que as criaturas que estão se viciando, sabendo que esses vícios podem levá-las a hospitais e tudo isso, elas estão, naturalmente, se destruindo a si próprias, e que esses viciados são pessoas que procuram prazeres artificiais.
Não há dúvida! E o senhor pergunta o seguinte: se estes vícios fazem parte da evolução terrena, da evolução do homem na Terra.
É claro que fazem parte. Não só estes vícios como todos os demais desmandos praticados pelos homens. Quando os homens estão em evolução, eles dispõem de livre-arbítrio, porque para que o espírito possa evoluir, é necessário que ele tenha liberdade. Se nós fizermos a evolução do homem forçadamente, obrigando-o a adotar certos caminhos pela força, nós não estamos lhe dando o principal para sua evolução espiritual que é a liberdade.
Sem liberdade, não existe responsabilidade. Isto é muito conhecido e hoje muito utilizado até mesmo na pedagogia, na educação comum das criaturas humanas.
Antigamente, fazia-se a criança, na escola, decorar, aprender obrigatoriamente certas matérias, e se ela errava, castigava-se fisicamente a criança. A educação moderna mudou isso por completo. Ensinou que aquela educação antiga não era propriamente educação e sim domesticação, da mesma forma que se domestica um animal obrigando-o a adquirir hábitos forçados contra sua própria natureza.
Assim, a educação moderna é uma educação que dá liberdade à criança. Muita gente lamenta isto, porque queria que as crianças fossem esmagadas pela sua prepotência. Mas Deus não age dessa maneira. Ele quer que todas as suas criaturas evoluam dentro dos princípios da liberdade. Porque só tendo liberdade é que a criatura pode ser responsável pelo que faz. Quando a criatura não tem liberdade, o responsável é aquele que impõe à criatura os atos que ela pratica.
Dessa maneira os vícios fazem parte não apenas da evolução terrena do homem, como de todas as criaturas que evoluem em todos os mundos, vícios, crimes, todos os desequilíbrios por que nós passamos.
Mas isso não quer dizer que as criaturas sejam obrigadas a viciar-se. O homem tem liberdade de escolha, de opção. Ele pode escolher o caminho que ele quiser. É verdade que haverá constrangimentos sociais, constrangimentos impostos, às vezes, pelas próprias situações vivenciais em que ele se encontra. Mas ele dispõe de elementos para reagir contra estes constrangimentos.
Assim, se ele aprender a reagir e vencer, ele então será o responsável pela sua própria evolução. E este é o seu mérito. Mas não é apenas uma questão de mérito que está em jogo e sim a questão de fazer com que o espírito que evolui seja senhor de si mesmo e saiba por que faz ou não faz isto ou aquilo.
Os viciados que estão hoje prejudicando-se, estão passando por uma experiência. Por mais dolorosa que seja essa experiência, vai ensinar-lhes na próxima encarnação a se afastarem dos vícios.
Desta maneira nós temos de compreender que todos os males existentes na Terra, com que nos defrontamos aqui, não podem ser suprimidos de um momento para outro como nós queríamos. Esses males desaparecerão com a evolução do homem e da humanidade. Mas para que o homem evolua realmente ele precisa ter a liberdade de experimentar até mesmo o vício, se ele quiser.
O senhor pergunta ainda sobre consciência, compreensão e lógica. A sua pergunta é muito sucinta, o senhor não diz o que quer entender sobre isso, o que quer saber sobre isso. Mas eu relaciono naturalmente isso com a sua pergunta anterior. O senhor poderia perguntar o seguinte: onde está a consciência dos viciados?
A consciência dos viciados existe, como existe a consciência dos criminosos, como existe a consciência dos selvagens, como existe a consciência dos homens mais evoluídos intelectualmente e mais desprovidos de moral. A consciência faz parte da nossa estrutura espiritual. Todos nós temos consciência, e a consciência está sempre agindo dentro de nós. A consciência, costuma-se dizer, é a voz de Deus conduzindo-nos nos caminhos da evolução.
Mas acontece que o homem tem liberdade, como dissemos, e precisa ter liberdade. Ele ouve a consciência ou não ouve. Ele escuta essa voz misteriosa que fala dentro dele e a obedece ou a desobedece e procura abafá-la com seus interesses imediatos na vida carnal. De maneira que a consciência não está ausente no caso do viciado. A consciência está sempre presente em todas as criaturas, mas o homem tem liberdade de ouvir ou não a voz da consciência.
No tocante à compreensão: todos nós devemos compreender os nossos deveres, as nossas obrigações, os nossos problemas. Mas todas essas coisas são muito mais complexas do que podem parecer imediatamente para nós. É muito simples dizermos assim: este homem viciado no álcool não compreende que o álcool o está destruindo? Por que ele não deixa isso imediatamente?
É muito fácil para nós que estamos fora da situação dele dizermos isso. Mas o homem que está dentro do vício, que está imerso no vicio, ele está lutando com uma infinidade de problemas. Ele luta inclusive com sua consciência, contra sua própria consciência. Essa batalha muitas vezes o desnorteia. Ele se sente incapaz de dirigir com verdadeira compreensão à sua luta para poder se libertar do vício. A compreensão, entretanto, irá surgindo com o tempo. Porque não só o homem nessa batalha dispõe do poder da consciência como dispõe também da ajuda do seu espírito protetor, dos espíritos amigos que o assistem, dos parentes que oram por ele, e da proteção de Deus. Mais hoje, mais amanhã, a compreensão o levará a tomar uma atitude diferente.
A lógica, diz o senhor, e a lógica?
A lógica é claro que decorre de um pensamento esclarecido conduzido rigorosamente dentro das leis da razão, mas é evidente que um homem que está viciado não está em condições de usar este pensamento. Ele necessita vencer os seus instintos, as forças instintivas que agem dentro dele e que o arrastam, às vezes, para caminhos viciosos muito perigosos.
Não podemos exigir de uma mente em conflito, aturdida por problemas vitais em que ele se vê envolvido como uma criatura num incêndio, no meio de um incêndio, exigir que ele vá usar a lógica com a precisão de um sábio num laboratório. Precisamos também entender essas coisas. Precisamos também ter lógica da nossa parte no exame do problema dos vícios e dos perigos a que as criaturas humanas são arrastadas pelos seus impulsos afetivos, pelas suas forças interiores que, não controladas ainda no processo evolutivo, muitas vezes desencadeiam-se como os elementos nas tempestades.
Em tudo isto, no tocante à consciência, à compreensão e à lógica, quando falamos dessas coisas, nós também devemos perguntar a nós mesmos, que estamos interpelando os outros a respeito, se estamos procedendo com a devida orientação da nossa própria consciência. Com a necessária compreensão do problema em que aquela criatura está envolvida, e com a lógica devida para não fracassarmos nas nossas críticas ou nas nossas observações.
Locutor - Professor, o ouvinte Ivan Demétrio Santana nos escreve dizendo: há poucos meses que frequento aulas sobre espiritismo. Aqui onde me encontro, havia ainda até pouco tempo este tipo de religião e nós recorríamos à biblioteca onde, com os antigos livros, conseguimos o pouco que sabemos com respeito à doutrina.
Num dos programas passados, o senhor falou sobre um livro no qual Allan Kardec formulou uma série de perguntas aos espíritos e estes responderam a todas. Peço-lhe, então, que se possível, o senhor me envie o livro para que eu possa aprender um pouco mais sobre a nossa vida material e espiritual.
J. Herculano Pires - Percebo que os seus conhecimentos a respeito da doutrina realmente são ainda bastante rudimentares, porque o senhor se assustou de eu falar de um livro de Kardec em que há perguntas e respostas, no diálogo de Kardec com os espíritos.
Pois bem, toda obra de Kardec, toda obra básica de Kardec que deu origem à doutrina e que se conformou na organização da doutrina, toda esta obra é um diálogo de Kardec com os espíritos. A partir, portanto, do “O Livro dos Espíritos” – e foi certamente a este livro que eu me referi –, a partir dali a obra de Kardec é um constante dialogar com os espíritos através da mediunidade.
Toda doutrina espírita resultou deste diálogo. Então é necessário que o senhor tome conhecimento disso. Mas eu não o aconselharia a ler imediatamente “O Livro dos Espíritos”. Eu lhe aconselho a ler antes os livros que preparam a nossa mente para a compreensão do “O Livro dos Espíritos”, porque este livro é a obra fundamental da doutrina. Então eu vou lhe fazer um presente de irmão, de acordo com a maneira por que atendemos a certas perguntas neste programa. É um presente de irmão do programa No Limiar do Amanhã e da editora Edicel. Vou lhe oferecer o livro “Iniciação espírita”, de Allan Kardec. Este livro o senhor recebe como um presente de irmão, porque todo o livro espírita é um presente verdadeiramente de irmão para irmão. O senhor pode procurar este livro no escritório da Rádio Mulher a partir de segunda-feira próxima no horário comercial. O escritório da Rádio Mulher fica na Avenida Barão de Itapetininga, 46, 11º andar, conjunto 1.111. O livro estará no seu nome.
Locutor - Professor, a ouvinte Vera Lúcia Casagrande, da Rua São Leonardo, nos diz o seguinte: conhecendo seu sistema de trabalho, resolvi escrever-lhe a fim de que sejam esclarecidas certas dúvidas que me rodeiam. Segundo “O livro dos espíritos”, nós fomos criados simples e ignorantes. Gostaria de saber se Jesus Cristo está enquadrado na mesma situação.
J. Herculano Pires - É evidente que sim.
Toda criação do universo foi feita por Deus. Todas as criaturas do universo são filhas de Deus. Pois bem, Jesus Cristo comparou-se no Evangelho, como nós vemos, a nós mesmos. Ele falava de Deus como pai, o nosso pai, o pai de nós todos. E considerava-se nosso irmão.
Jesus Cristo, como nós, como todos os demais espíritos superiores, todos foram criados por Deus, e todos partiram do mesmo princípio, porque Deus é justo e equânime. Nós todos começamos da mesma maneira. Acontece que Jesus é um espírito criado muito antes de nós, com uma evolução imensa diante de nós, e quando ele veio para a Terra ele já estava há muitos e muitos séculos e milênios numa situação de evolução superior, muito superior à nossa humanidade. Por isso, ele é o nosso governador espiritual. É o governador espiritual do nosso planeta.
Locutor - Prossegue a nossa ouvinte: o espírito no momento de reencarnar se reduz ao tamanho infantil?
J. Herculano Pires - O tamanho físico não tem relação com o tamanho espiritual ou aquilo que poderíamos chamar de tamanho espiritual. Mas na verdade toda vez que um espírito vai se reencarnar, ele se submete, na espiritualidade, a um processo de adaptação às condições infantis. Por isso diz Allan Kardec que o espírito da criança aparece na Terra vestindo a roupagem da inocência. Aparentemente inocente como uma criança, mas trazendo dentro de si toda bagagem das experiências, dos conhecimentos das vidas anteriores.
Talvez pudéssemos chamar a essa bagagem enorme que os espíritos trazem para a Terra quando se reencarnam, pudéssemos considerá-la como sendo o tamanho espiritual do espírito. Porque é na verdade a sua idade. A idade do espírito se mede pela bagagem de experiências e de conhecimentos que ele traz consigo. A idade no sentido da sua formação, do seu aparecimento como indivíduo humano.
Assim, nós poderíamos perguntar também: neste caso, a criação de Deus não foi feita apenas uma vez e num momento determinado? Não. De acordo com o espiritismo e de acordo com o Evangelho de Jesus, porque lá no Evangelho está bem claro isso, que Deus age constantemente, sempre agiu, e está agindo mesmo agora neste momento, segundo disse Jesus.
De acordo com esses dois princípios, o evangélico e o espírita, nós sabemos que a criação é permanente, é contínua. A todo o momento Deus está criando. E a criação se processa de acordo com as explicações que nós encontramos no “Livro dos Espíritos” de uma forma realmente impressionante para nós, porque não corresponde às nossas ideias, não corresponde aos nossos atos de encarar os problemas.
O homem, diz a Bíblia, foi feito por Deus do limo da terra. Pois bem, é do limo da terra, é dos reinos inferiores da natureza que o homem é arrancado lentamente por Deus através da evolução. E este princípio nos mostra então que na realidade a formação do homem não corresponde às ideias dramatizadas que nos apresentam as várias religiões cristãs, mas corresponde a um processo muito mais sutil e profundo que o espiritismo explica.
Faça as suas perguntas por carta ao programa No Limiar do Amanhã escrevendo para a Rádio Mulher Rua Granja Julieta, 205, São Paulo. Não faça relatórios, faça perguntas. Se quiser, faça as suas perguntas pelo telefone durante a semana no horário comercial discando estes números: 269-4377 ou 269-6130. E ouça as respostas pela Rádio Mulher em São Paulo, pela Rádio Morada do Sol em Araraquara, e pela Rádio Difusora Platinense em Santo Antônio da Platina, Paraná. Todas as semanas neste dia e neste horário.
Perguntas e respostas.
Pergunta nº 7: Reencarnação de Kardec
Locutor - O ouvinte Rafael Belmonte, da Rua Maria Coelho, Itaberaba, Capital, faz a seguinte pergunta, professor: no livro “Obras Póstumas” de Allan Kardec, ele dá entender que deveria voltar no fim do século passado ou no começo deste, e segundo o que tenho observado, isso não aconteceu. O que é que o senhor poderia dizer a respeito?
J. Herculano Pires - Esse problema da reencarnação de Kardec tem dado muito pano pra manga no meio espírita, mas não há motivo para isso. Kardec apenas registrou em “Obras Póstumas” algumas informações que os espíritos lhe deram.
Os espíritos, como sabemos, vigiavam o trabalho de Kardec porque o auxiliavam, estavam sempre com ele, orientando, dando-lhe intuições, e mesmo através de médiuns manifestando-se a ele transmitindo-lhe comunicações. Procuravam orientá-lo, estimulá-lo, ajudá-lo. Kardec, ao perceber que estava chegando ao final da sua existência e que na realidade ainda havia muito que fazer no espiritismo, ele naturalmente se inquietava com isso, como todas as pessoas responsáveis se inquietam ao verem, principalmente como ele via, que não existia ninguém no seu tempo capaz de substituí-lo a altura no desenvolvimento do espiritismo.
Estas preocupações de Kardec levaram naturalmente os espíritos guias, orientadores do seu trabalho, a lhe darem algumas comunicações sobre a sua próxima reencarnação. Era uma providência no sentido de acalmá-lo, de desviá-lo das preocupações com isso, a fim de que ele pudesse aproveitar com mais tranquilidade o resto de tempo de que ainda dispunha da encarnação daquele tempo aqui na Terra.
Assim, não podemos considerar as referências feitas ali como coisas decisivas, como afirmações dos espíritos de que Kardec reencarnaria em tal ou tal tempo. Os espíritos, como nós fazemos com as crianças, se servem para conosco, as criaturas encarnadas, de certos expedientes para manterem a nossa atividade no campo da eficiência, do bom aproveitamento.
Naturalmente o senhor poderia alegar que Kardec era um espírito evoluído, altamente evoluído. Sim, não há dúvida. Mas os espíritos por mais evoluídos que sejam, quando se encontram encarnados, quando estão na Terra, eles têm a sua visão limitada às condições do mundo em que vivem, aos problemas com que se defrontam. A obra de Kardec era imensa. Ele se preocupava muito com a sua realização, com o cumprimento da sua missão. E justamente por isso ele se preocupava também com a continuidade do trabalho que ele via estender-se ainda muito além de tudo aquilo que ele já tinha feito.
Os espíritos se serviram naturalmente desse recurso para orientá-lo e acalmá-lo, propiciando-lhe a oportunidade de dar mais ênfase ao momento presente em que ele se encontrava, no trabalho que ele tinha que realizar naquele momento.
Assim, nós temos de considerar estas coisas e evitar as especulações absolutamente inúteis sobre a reencarnação de Kardec. Na verdade, nós ainda não aprendemos a lição de Kardec. O que ele nos ensinou nas suas obras ainda é mistério para a maioria de nós. Nós todos que procuramos ler Kardec, estudá-lo, aprofundá-lo, conhecê-lo, na realidade estamos muito longe de haver atingida a plenitude daquilo que ele nos ensinou.
Kardec ensinou muita coisa que nós ainda estamos longe de compreender. Ora, a troco de quê? Para que voltaria o professor à classe? No sentido de prosseguir o ensino, se o ensino dado até agora ainda não foi suficientemente compreendido. Esperemos, com tranquilidade, o momento em que Deus na sua infinita sabedoria poderá proporcionar-nos de novo a presença do professor de espiritismo que foi Kardec, para que ele possa desenvolver as suas lições no sentido de maior amplitude. Não será isso agora. Nós estamos ainda no ABC da obra de Kardec. Precisamos aprofundá-la, tornarmo-nos bons alunos, aprendizes ativos, capacitados, para então sim nos tornarmos dignos da volta do professor.
Locutor - Professor, o ouvinte Otavio Noronha nos pergunta o seguinte: a mediunidade é privilégio para algumas pessoas ou adquire-se por intermédio ou através de estudos?
J. Herculano Pires - A mediunidade, segundo temos sempre repetido neste programa, é uma faculdade humana natural. Nós todos somos naturalmente médiuns. Não é, portanto, a mediunidade um privilégio, não é uma graça concedida somente a esta ou àquela criatura. Podemos mesmo dizer que a mediunidade é uma conquista do próprio homem.
Nós todos temos as nossas faculdades. As faculdades humanas. Cada uma dessas faculdades se desenvolverá de acordo com as nossas experiências, com o nosso trabalho, com o nosso desejo bem aproveitá-la e de pô-la a serviço da evolução geral da humanidade.
O homem inteligente, por exemplo, que tem a inteligência bem desenvolvida, ele a tem porque desenvolveu, pois nós todos temos em potência a mesma capacidade intelectual, a mesma inteligência em condições de se desenvolver. Mas cada um a tem no momento presente na Terra, na sua fase atual de existência, cada um a tem na proporção em que já desenvolveu. Assim acontece com a mediunidade. Na proporção em que o homem a emprega utilmente, aproveitando a sua capacidade de percepção extrassensorial, quer dizer, de perceber as coisas não apenas através dos sentidos físicos, mas além dos sentidos; na proporção em que o homem se serve desses recursos e da sua capacidade de captar pensamentos, intuições, comunicações espirituais que lhe são dadas pelas formas mais diversas, na proporção em que ele vai desenvolvendo isto, ele desenvolve a sua mediunidade. E no momento em que ele aparece na Terra como um médium de alto desenvolvimento é porque ele conquistou esse desenvolvimento.
A graça de Deus já nos foi dada no momento em que ele nos criou. Porque ele nos criou tendo dentro de nós mesmos todas as potencialidades para serem desenvolvidas. E assim na proporção em que desenvolvemos essas potencialidades, a graça de Deus vai se atualizando, ou seja, se transformando em realidade atual na nossa existência.
Locutor - O senhor Antônio Severino da Silva, da Rua João Euclides Pereira, Presidente Altino, Osasco, nos escreveu fazendo os seguintes relatos: em 1970 eu estava trabalhando, senti uma friagem no corpo e vi um menino vestido de padre e que me disse ser São Francisco de Assis. Passados dois dias, senti novamente essa friagem e nesta visão havia muita gente e alguns animais doentes e eu fiz grandes milagres. Depois de um mês, recebi um aviso de que ia ficar doente e fiquei quinze dias de cama. Como o senhor explica isso? E o que me aconselha, professor?
J. Herculano Pires - A explicação disto é simplesmente a explicação de que o senhor tem naturalmente possibilidades de desenvolvimento mediúnico bastante acentuado. Mas que é preciso o senhor ter o maior cuidado possível com isso. Não se deixe levar por essas visões. Não se deixe impressionar por elas. Não acredite que São Francisco de Assis vem em forma de menino falar com o senhor, porque, se o senhor acreditar nisso, amanhã o próprio Deus aparecerá para falar com o senhor.
O mundo espiritual, como o mundo material aqui na Terra – este mundo em que vivemos –, está cheio de espíritos de todas as qualidades e de todos os graus de evolução. Há muitos espíritos mistificadores, mal intencionados e muitos deles bastante inteligentes que, quando encontram um médium desprevenido, procuram envolvê-lo nas suas fascinações. E nada mais fácil para fascinar um médium do que tocar-lhe a vaidade.
Se o senhor se envaidecer com a ideia de que São Francisco de Assis está se manifestando para o senhor, pode contar que sua mediunidade vai por água abaixo. O senhor será um candidato a desequilíbrio mental.
Não aceite, portanto, nada disto e procure frequentar um bom centro espírita e estudar. Estudar muito o espiritismo. Leia o livro “Iniciação Espírita” de Allan Kardec. Leia este livro com atenção. Página a página, procurando entender bem os seus ensinos. Na última parte desse livro, o senhor encontrará numerosas e proveitosas instruções sobre a mediunidade. Mas não leia apenas! Frequente um bom núcleo espírita. Um grupo espírita onde se pratica espiritismo de verdade, espiritismo de Allan Kardec, sem vestimentas brancas, sem rituais, sem imagens na mesa ou onde quer que seja, um centro onde as pessoas falem de maneira razoável, sensata e que tenham sempre sobre a mesa os livros de Allan Kardec, principalmente “O Livro dos Espíritos” e “O Evangelho segundo o Espiritismo”.
Aliás, depois que o senhor ler “Iniciação Espírita”, o senhor irá ler “O Livro dos Espíritos”. Mas primeiro o senhor vai ler este livro. E neste momento mesmo em que o senhor está lendo, pode também acompanhar a sua leitura com algumas leituras de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, fazendo preces, pedindo o amparo do seu espírito protetor, dos bons espíritos para o auxiliarem a fim de que o senhor não se extravie no tocante às suas relações com o mundo espiritual.
Vou lhe dar, em nome deste programa e da editora Edicel, um presente de irmão que é o livro “Iniciação Espírita”. O senhor o pode retirar a partir de segunda-feira, no horário comercial, no escritório da Rádio Mulher, à Rua Barão de Itapetininga, 46, 11º andar, conjunto 1.111. Grave bem este endereço e procure lá durante a semana a qualquer momento, dentro do horário comercial, em qualquer dia o senhor pode passar lá.
Locutor - Professor, o ouvinte Ildefonso dos Santos, da Rua 15 de Novembro, nos faz as seguintes perguntas: no “O Livro dos Espíritos” existe uma pergunta no capítulo nove, número 456: “Os espíritos veem tudo que fazemos? Resposta: Podem ver”.
Agora pergunto eu: não acha, o senhor, que é um contrassenso os espíritos penetrarem nos nossos atos mais íntimos? Estou falando dos espíritos levianos.
J. Herculano Pires - Não acho um contrassenso porque é uma realidade, e uma realidade natural que nós podemos ver aqui mesmo na nossa vida material, na nossa vida corpórea.
O senhor não teria nunca dado ouvidos a espíritos levianos encarnados; a pessoas que lhe sopraram instruções negativas, erradas, ou intuições falsas que o levaram a fazer coisas que o senhor não desejaria fazer, mas por instigação delas o senhor as praticou e depois se arrependeu?
Nós todos estamos sujeitos a essas interferências de espíritos levianos e irresponsáveis em nossas vidas. E não só espíritos desencarnados, mas também espíritos encarnados. Da mesma maneira por que esses espíritos encarnados nos atingem com as suas palavras e nos envolvem muitas vezes na sua maneira envolvente de falar e de nos arrastar para suas ideias, assim também os espíritos desencarnados com mais facilidade nos sopram as suas ideias.
Porque a nossa mente é como um aparelho de rádio. Ela pode pegar as ondas hertzianas do pensamento. Estas ondas podem vir de um cérebro encarnado ou de uma mente desencarnada. Nós recebemos constantemente pensamentos que nos vêm de outras mentes e de outros cérebros. Muitos destes pensamentos passam despercebidos pela nossa cabeça. Mas outros são detidos por nós. A escolha é nossa. Quem manda nas nossas cabeças somos nós, não são aqueles que nos transmitem pensamentos. Nós podemos ligar o nosso aparelho de rádio na estação que quisermos, mas se nós não vigiarmos a nossa mente, deixarmos que ela fique aberta a todas as interferências, então estamos sujeitos a ser prejudicados pelos outros, a perder o controle de nós mesmos e a ser controlados pelos outros. É o que acontece com as pessoas que aceitam pensamentos errados, que elaboram esses pensamentos em suas mentes considerando como de sua propriedade, como nascidos nelas mesmo, e que por fim se extraviam nas suas atitudes, nas suas atividades no mundo por falta de orientação.
A falta de orientação provém de nós mesmos. Da nossa incapacidade de nos firmarmos como donos e senhores da nossa mente e da nossa própria orientação.
Procuremos, pois, compreender isto e nos lembremos daquele ensino que vem no “O Evangelho segundo o Espiritismo” que diz assim: “Não podemos impedir que um passarinho pouse na nossa cabeça, mas não podemos deixar que esse passarinho faça ninho ali.” Compreendeu bem?
Constantemente passarinhos mentais estão pousando nas nossas cabeças. São pensamentos alheios. Mas não podemos impedir que eles passem pela nossa mente. Entretanto, se nós escolhermos um deles, aceitarmos e o acariciarmos, ele fará ninho em nossa mente e poderá produzir grandes consequências prejudiciais para nós. Tratemos, por isso, de manter sempre a nossa estação de rádio mental ligada com uma boa estação, o nosso aparelho de rádio mental ligado com uma boa estação. Uma estação que emita programas de elevação espiritual, de responsabilidade moral. Se fizermos assim os outros pensamentos serão interferências passageiras que não afetarão a nossa conduta.
Locutor - Segunda pergunta do nosso ouvinte referente ao capítulo 852 sobre fatalidades. Diz que os espíritos escolhem essa ou aquela prova ao reencarnarem. Então os que não conseguem se casar, mesmo querendo, escolheram também este tipo de prova ou é mesmo falta de sorte?
J. Herculano Pires - É claro, é claro que se trata de prova. Porque aquilo que nós chamamos “falta de sorte” não é nada mais do que consequências do nosso próprio destino. Nós todos temos sorte, a grande sorte que Deus nos deu de vivermos e de nos desenvolvermos nas atividades terrenas para que o nosso espírito se aprimore e se prepare com vistas não só a reencarnações mais felizes no futuro como, principalmente, a uma vida espiritual feliz, que é o mais importante.
A vida material é passageira, é efêmera, como nós sabemos. Ela passa muito rápida. Nós nos apegamos a ela por falta de compreensão espiritual, porque a nossa vida verdadeira é a vida espiritual, é a vida do espírito.
Ora, Deus nos concede as existências passageiras na Terra para que através das coisas mínimas nós possamos conquistar as coisas máximas; através das experiências terrenas nós nos preparemos para viver com mais amplitude a verdadeira vida que é a vida do espírito.
No problema do casamento, como em qualquer outra circunstância da vida humana, o que nós temos é sempre um problema de determinação anterior de acordo com as provas que nós escolhemos.
Nós, como espíritos, vivendo na vida espiritual, compreendendo, portanto, uma vida maior, vemos ali por nós mesmos o que está nos faltando na nossa evolução para nós atingirmos um plano mais favorável, para nós podermos subir um degrau na nossa escada evolutiva. E ao ver isto, nós escolhemos uma determinada prova. Uma delas pode ser a de não nos casarmos. Nós temos essa prova não apenas como prova, mas como uma oportunidade para nos dedicarmos mais profundamente a outros problemas que nos desafiam através das encarnações sucessivas. E nós devemos então devemos encarar a oportunidade da aparente solidão em que vamos viver no mundo como uma oportunidade na verdade favorável ao nosso desenvolvimento futuro.
É para isso que nós passamos pela Terra. E no caso do casamento, como de qualquer outra circunstância, nós não devemos nos esquecer de que não é a sorte ou a falta de sorte, não é o acaso que influi na nossa vida e que determina nossa situação, mas sim a lei de causa e efeitos, a lei de ação e reação que dirige todo o nosso destino e que nos traz à vida terrena com uma determinação escolhida por nós, pelo nosso próprio interesse. Porque na realidade essa provação vai resolver os problemas profundos do nosso espírito que nós, no momento presente aqui na Terra, não somos capazes de ver, mas que quando estamos em estado de espírito, na vida espiritual, enxergamos de maneira perfeita e clara.
Locutor - A ouvinte Ana Lúcia Silveira, do Morumbi, pergunta: já que palavra “pecado” está completamente em desuso, a doutrina espírita tem em seu livro “Leis de Amor” respostas às faltas cometidas pelos encarnados e suas consequências aos escândalos praticados hoje sem a menor cerimônia. Por que nós espíritas não alertamos a tempo, baseados na lei de causa e efeitos, se somos expositores, como o senhor sempre diz?
J. Herculano Pires - A palavra pecado praticamente quer dizer erro, incidência numa violação da lei de Deus. Ora, de maneira que, o fato de a palavra não ter hoje o efeito que tinha no passado não quer dizer que ela não possa ter vigência. Mas nós sabemos que no espiritismo todas estas coisas são consideradas dentro do processo da evolução.
O maior pecado para um espírita é ele impedir a sua própria evolução ou a evolução dos demais.
Qualquer obstáculo oposto no caminho da evolução do espírito é um pecado, no sentido de ser um erro bastante grave e até mesmo um crime, às vezes.
Diz a senhora que na doutrina espírita existe o livro “Leis do Amor”. Não é bem assim. “Leis do Amor”, “A Lei do Amor” faz parte do capítulo das leis morais no “Livro dos Espíritos”. Ali no “O Livro dos Espíritos”, nas leis morais, nós encontramos a explicação do problema da lei do amor.
Mas o problema da lei do amor, diz a senhora, devia ser explicado por nós espíritas, principalmente por aqueles que são expositores. Na verdade, os expositores têm a função de expor os princípios doutrinários. Mas se a senhora não tem ouvido exposições sobre o problema da lei de causa e efeito e das consequências dos erros que cometemos, principalmente no tocante à lei do amor dentro do espiritismo, é porque certamente a senhora tem ouvido expositores espíritas tratarem de outros assuntos.
Se a senhora ouvir este mesmo programa aqui verá que continuamente nós falamos deste assunto. Tratamos deste problema. Porque é um problema fundamental, de importância básica para o espiritismo.
Nós todos conhecemos a lei do amor. É a lei suprema do universo. O amor deve, portanto, ser entendido do ponto de vista espírita num sentido, numa perspectiva muito mais elevada do que a perspectiva comum em que o encaramos na Terra.
O amor não é apenas o amor de uma criatura por outra. É o amor de Deus pelas suas criaturas! É o amor dos espíritos superiores por todas as criaturas! A lei do amor é a força suprema do universo! É o grande poder criador de Deus! E quando nós amamos, quando nós, criaturas humanas, aprendemos a amar, realmente, nós também nos tornamos criadores como Deus. Não no sentido biológico, mas no sentido espiritual. Criadores de ideias, de imagens, de grandes obras, de gestos e de atitudes heroicas no sentido do heroísmo puro que é o heroísmo da abnegação em favor do próximo.
O Evangelho do Cristo em espírito e verdade, não segundo a letra que mata, mas segundo o espírito que vivifica. Abrindo o Evangelho ao acaso encontramos em Atos, no capítulo 17 do versículo 1 ao 8, o seguinte: Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram à Tessalônica onde havia uma sinagoga de judeus. Paulo, segundo seu costume, ali entrou e por três sábados discutiu com eles tirando argumentos das escrituras, expondo e demonstrando ser necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos. “Este Jesus que eu vos anuncio, dizia ele, é o Cristo”.
Alguns deles foram persuadidos e se associaram com Paulo e Silas bem como uma grande multidão de gregos devotos e não poucas mulheres de qualidade. Porém os judeus movidos de inveja, tomando consigo alguns homens maus dentre o vulgacho, e ajuntando a turba, amotinaram a cidade assaltando a casa de Jason, procuraram-nos para entregar ao povo. Porém, não os achando, levaram a Jason e alguns irmãos à presença das autoridades da cidade clamando: “estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui, aos quais Jason recolheu; todos eles vão de encontro aos decretos de César dizendo haver outro rei, que é Jesus”.
A leitura desses versículos 1 ao 8 do capítulo 17 do Livro de Atos dos apóstolos vem a propósito no encerramento deste programa. Nós vemos que a presença de Paulo e Silas em Tessalônica representou um momento bastante importante no desenvolvimento da campanha de propagação do cristianismo no mundo empreendida pelo grande apóstolo dos gentios. Vimos também a coragem, a bravura com que Paulo se apresentava às sinagogas judias, ele que havia sido doutor da lei em Jerusalém, e que havia sido perseguidor do cristianismo, a coragem com que ele se apresentava para defender o próprio cristianismo e afirmar aos judeus de livro nas mãos, com as escrituras judaicas nas mãos, afirmar a eles que Jesus de Nazaré, o crucificado, era na realidade o cristo esperado por Israel.
Não podemos imaginar hoje a situação que Paulo criava na sinagoga judaicas com isto, porque era realmente um escândalo fazer uma afirmação desta, e principalmente ele com sua autoridade de doutor da lei, de homem que havia atingido as culminâncias do poder espiritual em Israel, ele aceitar aquilo que para a maioria dos judeus era a farsa do cristo, a farsa que Jesus teria representado ao se apresentar como cristo. A coragem de Paulo era enorme, e Silas, que o acompanhava, partilhava desta coragem com a mesma abnegação e a mesma capacidade de devotamento ao Cristo.
O importante é que Paulo tinha que se servir naturalmente de poderosos argumentos para justificar diante dos seus compatriotas e diante dos seus antigos companheiros de religião a sua defecção, o seu abandono da escola judaica para integrar-se na escola cristã que estava nascendo. E Paulo, como vimos, se serve das próprias escrituras; ele vai justificar com os profetas, com os livros em que aparecem anunciação da vinda do messias, ele vai demonstrar que realmente Jesus passou por tudo aquilo que os profetas haviam falado, e que ao passar por aquilo, Jesus confirmara a sua existência natural de Cristo, a sua condição natural de Cristo.
Vemos também nesta passagem um ensino, um ensino histórico bastante importante não tocante ao desenvolvimento da espiritualidade na Terra. Nós sabemos que as religiões são formas educacionais, formas pedagógicas através da qual os mestres espirituais vêm ensinando na escola da Terra os homens a caminharem para a espiritualidade. Mas estas religiões se sucedem umas às outras como os anos escolares se sucedem num curso escolar na Terra. E de uma religião vai naturalmente resultar o aprendizado básico para o desenvolvimento do espírito em outra religião seguinte.
É assim que das religiões primitivas, passando para as religiões das formas civilizadas do mundo nas civilizações sucessivas que a história nos apresenta, os homens vão subindo pouco a pouco no conceito de Deus, na ideia que fazem da sua própria natureza, da sua existência na Terra, da sua vida terrena e das consequências que os seus atos na Terra terão na vida futura no espaço.
Nós podemos ver isto na própria transição do judaísmo para o cristianismo. Quando lemos as escrituras judaicas que são apresentadas em nosso mundo cristão através da Bíblia; quando lemos esses livros bíblicos com suas diversas formas de expressão e trazendo-nos informações não somente espirituais, mas históricas, materiais sobre o costume dos povos daqueles tempos e as atividades religiosas que desenvolviam, e quando confrontamos isso com os ensinos de Jesus, com o trabalho espiritual que ele realizou junto das almas e não apenas dos homens, nós vemos a grande diferença, o grande passo que o mundo deu ao passar da era judaica para a era cristã.
Paulo foi praticamente o artífice dessa transição. Ele realizou um trabalho profundo no sentido de demonstrar que ao contrário do que pensavam os judeus a glória de Deus não reside na glória falsa dos homens. E que justamente por isso o Cristo não devia aparecer como o indivíduo investido de autoridade, de poderes temporais, como esperavam os judeus, para que então, através desse poder e dessa autoridade, se impusesse ao mundo; mas pelo contrário, a glória de Deus se tece daquelas coisas que os homens desprezam, as coisas que para os homens são humilhações e não glória.
E por isso o Cristo teria que padecer e de morrer na cruz, considerado como uma criatura ignominiosa, submetido a mais ignominiosa das condenações que havia na época. Tinha de passar por isso para mostrar que baixando ao último na escala dos homens, ele subiria depois através da ressurreição, ao ápice da evolução na escala espírita, na escala dos espíritos, do mundo espiritual. A divindade do Cristo não se afirmaria, portanto, como esperavam enganosamente os judeus, não se afirmaria através dos seus poderes terrenos, mas sim das suas virtudes celestes.
E é Paulo, este mesmo Paulo que faz essa afirmação aos judeus, que ele depois irá nos fazer as afirmações constantes da epístola aos coríntios, a primeira epístola em que ele apresenta a ressurreição do Cristo como aquela mesma ressurreição pela qual nós todos passaremos: a ressurreição do espírito em espírito e verdade no corpo espiritual após a morte do corpo material. Este ensino, portanto, de Paulo em Tessalônica ressoa ainda em nossos corações e em nossas consciências neste momento em que o cristianismo redivivo se ergue dentro de nós, diante de nós, em nós mesmos e fora de nós, na nossa presença, no desenvolvimento da era do espírito em nossa Terra.
Amigos ouvintes, aqui nos despedimos com os votos de estudo e trabalho, compreensão e amor para a próxima semana. Dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, estejamos empenhados na construção da era do espírito.
No Limiar do Amanhã: um convite ao futuro.
Antes da nossa reunião pública, amigos da Guanabara mostraram-nos duas reportagens recentemente lançadas sobre a eutanásia. Éramos um grupo de irmãos debatendo assuntos da atualidade e o problema proposto despertou-nos a atenção. Depois de opiniões variadas na conversação em curso, o horário nos chamou para as tarefas da noite.
Aberta a nossa reunião de estudos, O evangelho segundo o espiritismo, com surpresa para nós todos, ofereceu-nos o item 28 do capítulo V, sobre a questão da morte aplicada em nome da benevolência humana.
Diversos companheiros comentaram a lição, após o que Emmanuel, o nosso caro benfeitor espiritual, compareceu com a página Eutanásia e vida.
Programa 95
PROGRAMA 95
Caso tenha interesse em ouvir as perguntas separadamente, cada uma delas acompanha o áudio específico. Para ouvir o áudio completo do programa, utilize esta opção:
Entramos em 1973, sustentando o nosso desafio. Vai para dois anos que ele está no espaço, suspenso sobre as inquietações humanas. Não é um desafio arrogante, porque é um convite à compreensão e ao amor. Não confiamos em nós, mas na verdade. Chegamos pela razão e a pesquisa a convicção de havermos tocando a fimbria da verdade sobre os problemas fundamentais da vida e da morte. Antes de desafiar, portanto, fomos desafiados e aceitamos o desafio dos mistérios que aturdem os homens.
Muitos ouvintes aceitaram nosso desafio e por sua vez nos lançaram os seus desafios. Conseguimos assim estabelecer em forma permanente o diálogo radiofônico No Limiar do Amanhã. Deus nos permitiu sustentá-lo com regularidade nos anos de 1971 e 1972. Certamente permitirá que o prossigamos nesse ano.
E você amigo ouvinte, é o convidado permanente do diálogo livre, onde não se usam as armas agressivas do autoritarismo e do dogmatismo, mas os floretes leves e vibrantes do raciocínio e do debate sem segundas intenções.
Hoje é o dia do nosso encontro face a face no auditório da Rádio Mulher. Aqui estamos para um debate ao vivo. Olhamo-nos cara a cara e não trememos, porque sabemos nada ter a temer um do outro. Espadachins da verdade, travamos o duelo dialético dos gregos. Ninguém pretende ferir, pelo contrário, todos nós queremos curar as feridas das nossas angústias e das nossas incertezas, buscando um no outro o pedaço da verdade que nos falta. Nenhum de nós quer impor ao outro a sua verdade particular que é sempre orgulhosa e ilusória, mas encontrar a verdade impessoal que provem de Deus para todos.
A verdade é humilde, simples, porque é natural. Os orgulhosos e arrogantes não a veem, porque não aceitam a simplicidade. A verdade da vida e a verdade da morte foram enleadas em teias ilusórias de símbolos, ritos e palavras. A maioria das criaturas ainda se perde na complicação dos mistérios do sobrenatural. Este programa é uma oportunidade para devolvermos a verdade a sua nudez natural. Se estivermos enganados, que nos esclareçam os mais esclarecidos. Não queremos ensinar, mas aprender, como aprendemos com os sábios, os filósofos e os santos as verdades evidentes que nos apresentaram na palma de suas mãos. São essas as verdades que expomos aqui.
No Limiar do Amanhã, um programa desafio. Produção do Grupo Espírita Emmanuel, transmissão número 95, segundo ano. Direção e participação do professor Herculano Pires.
Este programa é transmitido nesse dia e nesse horário, todas as semanas pela Rádio Mulher de São Paulo 730kz, pela Rádio Morada do Sol de Araraquara 640kz, e pela Rádio Difusora Platinense de Santo Antônio da Platina, Paraná, 780kz. Todas as semanas neste dia e neste horário.
Perguntas e respostas no auditório. Antes de iniciarmos as nossas perguntas e respostas de hoje, queremos lembrar aos ouvintes de casa que suas perguntas para os programas do mês devem ser feitas por carta, endereçadas ao programa No Limiar do Amanhã, Rua Granja Julieta, 205, São Paulo. Durante cada semana poderão também fazer suas perguntas no horário comercial, pelos telefones 269-4377 ou 269-6130.
Iniciamos agora o nosso diálogo radiofônico com os nossos ouvintes. Entrevistando um de nossos frequentadores que todas as primeiras quartas-feiras do mês aqui está presente, prestigiando dessa maneira o espiritismo e o programa No Limiar do Amanhã. O nome e a pergunta.
Pergunta nº 1: Força da prece
Plateia - Luís Buriti. Moro aqui em Santo Amaro, na Rua São Genaro.
Professor, sabemos que através do espiritismo, temos conhecimento de que os espíritos ainda agarrados aos vícios e paixões da Terra costumam satisfazê-los absorvendo junto com os encarnados os vapores de bebidas e comidas. Gostaríamos de saber de que maneira os espíritos absorvem as oferendas que lhes são feitas, ou seja, os chamados despachos, uma vez que essas ofertas são feitas em garrafas fechadas, charutos apagados e velas apagadas também, e os animais não são preparados, nem limpos.
J. Herculano Pires - A pergunta é realmente interessante, tem a sua razão de ser. Entretanto eu gostaria de estabelecer, antes de mais nada, uma diferença que é muito necessária entre o espiritismo e essas práticas. Essas práticas não são espíritas; elas pertencem a práticas de religiões primitivas de povos selvagens, são muito usadas entre os povos selvagens.
No Brasil elas se propagaram, se difundiram, porque vieram da África através do tráfico negreiro. As populações negras da África, caçadas nas selvas, como selvagens que eram, e trazidas para cá, vieram impregnadas de suas religiões primitivas. Essas religiões aqui se espalharam, misturaram-se com as religiões existentes no nosso meio, até mesmo com as crenças indígenas e as crendices populares, e deram em resultado as conhecidas formas de sincretismo religioso afro-brasileiro que hoje existem muito no Brasil, como existem em outros países da América com nomes diferentes.
Então, quando nós falamos de macumba, despacho, essa coisa toda, nós não estamos falando de espiritismo. Estamos evidentemente falando de problemas mediúnicos. Mas é preciso também compreender que a mediunidade é a fonte natural dos fenômenos, chamados hoje paranormais, fenômenos estes que são estudados pelo espiritismo.
O espiritismo foi a primeira doutrina a estudar esses fenômenos a sério e foi dele, do espiritismo, que nasceram todas as demais ciências hoje chamadas em geral como ciências psíquicas, quer dizer, a antiga parapsicologia alemã, antiga ciência psíquica inglesa, a meta psíquica francesa e a parapsicologia moderna, todas elas são descendentes do espiritismo. Todas elas decorrem das pesquisas espíritas sobre estes fenômenos.
Não estamos, portanto, falando de problemas propriamente espiríticos no sentido doutrinário da palavra, mas de problemas mediúnicos. Muita gente poderá dizer: mas problemas mediúnicos são espíritas. Não, não são espíritas quando não se enquadram na sistemática doutrinária.
Vamos dar mais um exemplo concreto para que isto possa ficar em claro. Uma queda d’água, uma cachoeira tem, como nós sabemos, um potencial hidroelétrico que pode ser bastante poderoso ou mais ou menos poderoso. Este potencial hidroelétrico captado por uma usina, submetido aos processos da técnica, dirigidos, portanto, pela ciência que cuida da eletricidade, este potencial vai produzir a luz, vai iluminar as cidades. Mas se esse potencial não for aproveitado pelos homens, ele apenas produzirá os resultados naturais da sua queda de água na cachoeira sem dar outros resultados. Poderá, por exemplo, mover um monjolo, uma roda d’água, produzir benefícios rudimentares, mas não atingir aqueles benefícios superiores que vai atingir com a eletricidade.
Ora, a mediunidade é precisamente o fenômeno natural como a queda d’água. Nós todos somos médiuns, nós todos possuímos mediunidade. Nós todos, portanto, estamos sujeitos a fenômenos mediúnicos. Quando temos um sonho profético, quando temos um pressentimento, quando temos até mesmo, podem rir se quiser, um palpite para jogar no bicho ou na loteria, se esse palpite está dando certo, isto é um fenômeno mediúnico porque é uma percepção extrassensorial, como diz hoje a parapsicologia. O indivíduo que tem um palpite certo num jogo determinado, ele tem uma antevisão do resultado que vai ser dado no jogo. Portanto, é uma percepção extrassensorial, quer dizer, uma percepção captada sem ser por intermédio dos sentidos. Tudo isto é mediunidade; portanto, nós todos temos mediunidade.
Entretanto, como todas as faculdades humanas, uns possuem maior quantidade, por assim dizer, de mediunidade e outros menor. Os que possuem maior são os chamados médiuns, e os médiuns são, na verdade, não só os que têm maior quantidade de mediunidade, mas também os que têm a missão mediúnica para trabalhar na Terra como intermediários do mundo espiritual. Estes são aquelas criaturas que eram chamadas no passado de agraciadas por Deus, de privilegiadas pela divindade. Nós sabemos hoje que não é nada disso.
O médium é uma pessoa comum, como nós mesmos, com os seus defeitos, com as suas imperfeições humanas como nós todos possuímos, mas dotado de uma possibilidade mais aguda, de uma sensibilidade mais aguda no campo da percepção extrassensorial. E muitas vezes investido de uma missão mediúnica que não é para ele uma graça, mas quase uma desgraça, porque o submete muitas vezes a situações bastante difíceis que ele tem de enfrentar no mundo. Embora na realidade não seja uma desgraça porque no final a mediunidade é sempre uma bênção, porque é um auxílio para ele se desenvolver espiritualmente.
Bom, colocado esse problema que me parece importante, porque do contrário vão dizer por aí que nós estamos tratando de macumba aqui no nosso programa e que nós somos umbandistas, ou coisa semelhante. Não, não somos nada disso. Mas temos de enfrentar a pergunta do nosso amigo Luís. Na realidade, os despachos são feitos nos terreiros de macumba, das diversas formas de sincretismo religioso afro-brasileiro, são feitas através da mediunidade. Os selvagens africanos, quer os selvagens brasileiros, quer os selvagens da Austrália ou de qualquer outra parte do mundo, eles sempre usaram esses processos porque a mediunidade é natural, ela existe naturalmente. Então eles vivendo na vida natural, na selva, aprenderam a se utilizar da mediunidade.
Nós sabemos que havia as lutas entre as tribos. Nessas lutas entre as tribos eram aplicadas como arma de luta os fenômenos mediúnicos. A religião que nós mesmos, os brancos civilizados, também utilizamos quando existe guerra entre países nossos – nós sabemos, por exemplo, é muito conhecido o fato de sacerdotes de uma determinada religião estarem orando aqui, por exemplo, num determinado país que está em guerra com outro, para que Deus conceda a vitória para esse país –, conhecemos o problema dos sacerdotes abençoarem as armas de guerra, os canhões, as metralhadoras, os navios, os tanques e assim por diante, para que eles obtenham a vitória contra o outro. Mas do lado de lá, no outro país, também os sacerdotes estão abençoando as armas dos inimigos que vêm lutar contra os outros. Quer dizer, não podemos censurar isso nos selvagens porque nós também praticamos isso.
Então, os selvagens usavam na sua religião primitiva, meios mais eficientes. Eles não apenas abençoavam. Eles se utilizavam das próprias manifestações dos espíritos para atacar os seus adversários. Se eles tinham uma batalha ou uma luta em perspectiva, então eles faziam aqui no seu trabalho, que é chamado de terreiro, porque eles faziam isso na terra batida no meio do mato, eles ali onde preparavam os terreiros para isso, então eles ali faziam um despacho contra aquela outra tribo, contra o cacique, contra o pajé, contra os guerreiros mais fortes, para inutilizá-los. E como faziam esses despachos? Oferecendo aos deuses das selvas – deuses para eles eram os espíritos que habitavam as selvas –, estes espíritos se manifestavam através do pajé que era sempre um médium. Ou se manifestavam mesmo através de processos mediúnicos, inclusive de materialização – como ficou provado nas pesquisas antropológicas e etnológicas feitas sobre os povos selvagens –, esses espíritos se manifestavam e se punham à disposição da tribo. Cada tribo tinha os seus espíritos simpáticos, os seus espíritos familiares, amigos, que queriam defender aquela tribo. Mas além desses, havia outros espíritos das matas, espíritos de guerreiros mortos, de tribos desaparecidas que viviam por ali.
Então aqueles espíritos familiares traziam esses outros espíritos mais bravos, mais valentes, para ajudarem a tribo, e a tribo tinha de oferecer alguma coisa para eles: ofereciam caças, bebidas, ofereciam todos os presentes que pudessem interessar aqueles espíritos.
Como eram espíritos ainda grosseiros, bastante impregnados de matéria, não desapegados ainda suficientemente da vida material, esses espíritos entendiam que aquelas ofertas eles podiam receber e aproveitar. Então estabelecia-se o seguinte: essas ofertas iam ser depositadas num determinado lugar da floresta, onde esses espíritos iriam buscar depois. Mas primeiro eles iam verificar se aquelas ofertas estavam ali, para depois ir atacar os inimigos.
Então eles iam e atacavam realmente os inimigos quando eles podiam, porque aqueles lá também tinham as suas defesas espirituais, tinham os espíritos que também colaboravam com eles. Então o despacho às vezes atingia o resultado, às vezes não.
O despacho, na verdade, não é o despacho desses objetos, como se costuma pensar, da garrafa de pinga, da galinha morta preparada ou não, porque também existe a galinha preparada, feitinha, que eles oferecem. O despacho é o envio dos espíritos vingadores, dos espíritos que vão atacar, dos espíritos inferiores que vão obsedar, perturbar e produzir doenças, se possível nas pessoas a que eles se dirigem.
Então, esse despacho é feito em sentido ilusório, porque aqueles espíritos não sabem que não vão poder aproveitar aqueles presentes. Eles acham que vão poder. E eles vão realizar o trabalho. Só depois, ao verem que não podem aproveitar aqueles presentes, eles sentem que naturalmente deviam ter exigido mais e realmente depois eles exigem. Nós sabemos que os espíritos quando não conseguem se servir desses elementos, eles vão exigir das pessoas, que produzam coisas diferentes, que preparem os alimentos e que os comam para eles poderem saborear através das emanações, como o senhor falou muito bem.
Quer dizer, é nesse sentido que nós temos que entender. Eles na verdade não podem aproveitar aquele elemento que é colocado em garrafas ali ao lado da estrada, porque eles não têm elementos para absorverem aquilo, tanto que fica ali é geralmente aproveitado por outras pessoas. Mas quando um indivíduo da tribo bebe aquela bebida ou come aquele alimento, esses fluídos, que decorrem da alimentação natural das criaturas, é absorvido pelos espíritos que geralmente chamamos de vampirescos, que ficam vampirizando aquelas pessoas para sugarem os fluídos dos elementos que eles queriam comer ou beber.
Locutor - Vamos passar a palavra para um companheiro nosso que se encontra no auditório que acredito seja hoje a primeira vez que vem ao nosso programa. E nós pediríamos que ele se identificasse, por favor.
Plateia - Chakil Cames, moro em Guarulhos. Professor, dois médiuns, os seus guias e uma sessão podem ter afinidade? Ou isso é prejudicial, vindo a prejudicar a sua missão?
J. Herculano Pires - Dois médiuns numa mesma sessão, tendo os mesmos guias?
Plateia - Não, cada um com seu guia.
J. Herculano Pires - Cada um com seu guia.
Plateia - Tem afinidade entre os dois.
J. Herculano Pires - Entre os dois médiuns?
Plateia - É. Entre os dois guias. É prejudicial para os médiuns e para os guias?
J. Herculano Pires - Não vejo motivo nenhum de ser prejudicial, porque se há afinidade seja entre os médiuns, seja entre os guias, há simpatia. Há, portanto, uma relação simpática, favorável para o próprio desenvolvimento dos trabalhos.
Não sei se é isso o que o senhor está perguntando. É isso mesmo?
Plateia - É que aventou-se a hipótese de que quando há afinidade entre dois guias e dois médiuns, enfraquece um, enfraquece o outro.
J. Herculano Pires - Absolutamente. Não há razão nenhuma para isso. Pelo contrário, nós sabemos que a lei do universo é a lei da solidariedade, é a lei da fraternidade. Entre os espíritos, essa lei de solidariedade se apresenta de maneira muito mais forte, muito mais poderosa. Se nós tivermos numa sessão, evidentemente, dois médiuns com dois guias que não sejam afins um ao outro, que sejam contraditórios, né, então sim, teremos prejuízo. Inclusive teremos que compreender que esses guias não são elevados, são inferiores. Quer dizer, a regra normal, a regra geral é haver afinidade entre os espíritos elevados, entre os guias espirituais.
Plateia - Professor, quero deixar clara a minha situação: eu, de espiritismo, pouco entendo.
J. Herculano Pires - Pois não...
Plateia - É que a gente vai tateando aqui, ali, até um dia achar...
J. Herculano Pires - Pois não...
Plateia - ... o lugar certo para dar vazão e encaminhar a vida espiritual.
J. Herculano Pires - Perfeitamente.
Plateia - Então eu e a patroa frequentamos um centro que dizem que é umbanda.
J. Herculano Pires - Sim.
Plateia - Eu já ouvi dizer que umbanda não existe ou se existe é um outro negócio...
J. Herculano Pires - Não. Existe, mas não é espiritismo. É umbanda. Quer dizer, umbanda é uma coisa, espiritismo é outra.
Plateia - Me explicaram que umbanda não é kardequiano não é kardecismo.
J. Herculano Pires - Sim, porque kardequiano é o espiritismo.
Plateia - É, mas é um negócio que até hoje eu estou para entender, e...
J. Herculano Pires - Então eu vou tentar lhe explicar rapidamente.
Plateia - Bom, mas não é essa a pergunta.
J. Herculano Pires - Sim. Mas eu vou te explicar isso porque estamos na onda, né? Quer dizer, Allan Kardec é um professor francês que codificou o espiritismo. Ele é praticamente, podemos dizer assim, embora não seja essa a expressão certa, o criador do espiritismo. Ele criou o espiritismo como doutrina – se bem que não foi ele que criou, porque os espíritos ditaram a ele, essa coisa toda; ele é o coordenador. Então quando falamos de espiritismo e kardecismo, estamos falando da mesma coisa. Quer dizer, Allan Kardec é aquele homem que codificou toda a doutrina espírita e no-la ofereceu. Então espiritismo e kardecismo é uma coisa só.
Mas quando falamos de umbanda, nós estamos falando de um tipo diferente de espiritualismo, não de espiritismo. Estamos falando de uma religião primitiva da África, que foi transplantada para o Brasil e aqui se desenvolveu.
Plateia - Agora eu vou fazer uma pergunta para o senhor, que é... vamos ver se dá para o senhor me entender.
J. Herculano Pires - Pois não.
Plateia - Uma frequentadora de umbanda, tendo recebido manifestações espíritas, constatando-se ser médium, a que linha vem a pertencer seu guia? Desde que foi notada uma diferença entre ele e os outros. O senhor me entendeu?
J. Herculano Pires - A diferença do guia dessa...
Plateia - O guia da pessoa, por exemplo, a patroa.
J. Herculano Pires - Dessa frequentadora?
Plateia - Falaram lá que ela é médium.
J. Herculano Pires - Sim.
Plateia - Então se o guia dela pertence à mesma linha daquele pessoal que trabalha, que é preto velho...
J. Herculano Pires - Sim.
Plateia - ... preta velha, todo esse negócio aí...
J. Herculano Pires - Sim.
Plateia - Mas houve uma manifestação do guia dela de um nível superior. Não falaram, não transmitiram, não deram recado... Em sentir e ver. Mas vamos admitir...
A que linha vem a pertencer o seu guia, se o guia dela é diferente daquele um homem mandou um centro que frequentava...
J. Herculano Pires - O problema de linhas também não é um problema do espiritismo. É na umbanda que existem as linhas. No espiritismo não.
Então quer dizer o seguinte: se esse guia se manifestou de maneira diferente daqueles guias de lá, se manifestou com uma linguagem superior, com ideias mais elevadas, quer dizer, pura e simplesmente que essa mulher deve trabalhar no espiritismo e não na umbanda.
Locutor - Vamos continuar formulando a terceira pergunta, por favor.
Plateia - Professor, pode a dirigente espiritual, sem ter tido o ambiente preparado, ter manifestações dos seus guias, alegando na porta que fulano ou beltrano está com problemas de ordem física ou espiritual? Agora, diga-se de passagem, que já sabia de antecedência, na entrada, do problema de certa consulente.
J. Herculano Pires - Bom, isso é um problema que evidentemente nós temos de considerar, o senhor está falando de um centro, não é propriamente de um centro espírita, e sim de umbanda. Então, nós no espiritismo, não podemos permitir que essas coisas se passem no centro.
Agora num centro de uma outra corrente de pensamento espiritualista, nós não podemos interferir nem mesmo com a nossa opinião. Cada um tem a sua liberdade.
Nós achamos que, nesse caso, como eu disse já ao senhor, o que interessa é o senhor encaminhar a sua senhora a um centro espírita, onde ela possa desenvolver a sua mediunidade de acordo com as suas próprias capacidades mediúnicas. Ela já revelou, não só por isso, mas pelas próprias dúvidas que o senhor levanta aqui no momento, pelas perguntas que o senhor formula, a gente sente que nem ela e nem o senhor estão adaptados a esse meio.
Os senhores têm de procurar então centro espírita onde talvez se adaptem melhor. Naturalmente a sensibilidade mediúnica de sua mulher corresponde mais ao processo espírita e não ao sistema umbandista.
Eu acho que o senhor devia se dirigir, por exemplo, a um centro espírita. O senhor mora em que bairro?
Plateia - Em Guarulhos.
J. Herculano Pires - Em Guarulhos... Lá em Guarulhos eu não me lembro de momento qual seria o centro que poderia lhe ser indicado, mas o senhor conversando com pessoas de lá, pessoas espíritas, facilmente descobrirá um bom centro espírita para que o senhor possa ir assistir a uma sessão, participar do assunto e, particularmente, começar a ler espiritismo! Leia o livro “Iniciação Espírita” de Allan Kardec. Com esse livro o senhor consegue realmente ter uma visão geral do espiritismo e compreender melhor os problemas da sua própria esposa. Porque nesse livro, “Iniciação Espírita”, além das partes teóricas do espiritismo que estão ali apresentadas, existe também o último volume desse livro – quer dizer, é um livro só, mas são três livros dentro dele –, o último volume se refere especificamente à mediunidade, manifestações mediúnicas.
Então o senhor ficaria bem informado. Tanto o senhor quanto ela precisam ler. E também “O Evangelho segundo o Espiritismo” de Allan Kardec.
Eu vou mesmo fazer o seguinte: aqui no programa, nós costumamos fazer um presente de irmão às pessoas que têm necessidade de algum livro assim. E eu vou lhe oferecer um presente de irmão. É o livro “Iniciação Espírita” de Allan Kardec. Esse livro o senhor pode retirar ou mandar alguém retirar em seu nome no escritório da Rádio Mulher, na Avenida Barão de Itapetininga, 46, 11º andar, conjunto 1.111, a partir de segunda-feira, sempre no horário comercial – pode ser no meio da semana, em qualquer momento, que o livro estará em seu nome.
Faça suas perguntas por carta ao programa No Limiar do Amanhã, Rua Granja Julieta, 205, São Paulo. Durante a semana faça suas perguntas pelos telefones: 269.4377 ou 269.6130 e ouça as respostas pela Rádio Mulher de São Paulo 730khz, pela Rádio Morada do Sol em Araraquara 640khz e pela Rádio Difusora Platinense de Santo Antônio da Platina, Paraná, 780khz. Todas as semanas neste dia e neste horário.
Pergunta nº 6: Sexo do perispírito
Locutor - E continuamos com o nosso diálogo radiofônico como acontece toda primeira quarta-feira no auditório da Rádio Mulher. Entrevistando uma jovem, você pertence a algum grupo espírita?
Plateia - [inaudível], Santo Amaro.
Locutor - Pode fazer a sua pergunta e o nome, por favor.
Plateia - Como?
Locutor - Diga o seu nome e faça a pergunta.
Plateia - Valentina Bechara, moro em Santo Amaro. Kardec nos foi bem claro quando disse que espírito não tem sexo, certo? Agora, sendo nosso corpo uma cópia exata do perispírito e o corpo ter órgãos genitais, logicamente o perispírito também o terá. Como deveríamos encarar esse fato?
J. Herculano Pires - Eu disse ainda há pouco tratando do perispírito, que quando nós falamos cópia exata, não é precisamente nesse sentido de exatidão física, mesmo porque o perispírito não é físico. Ele é, como diz Kardec, semi-material. Por outro lado, o corpo espiritual não é o espírito. O espírito é independente do perispírito. O espírito possui o corpo material e o corpo espiritual. Quando nós morremos, ele continua provido do corpo espiritual, mas ele mesmo não tem corpo. A senhora pode encontrar isso no próprio “Livro dos Espíritos”. Quando Kardec perguntou, por exemplo, a um espírito superior como ele poderia ver um espírito superior, o espírito respondeu que talvez aparecesse para ele como uma centelha, uma centelha etérea, porque os espíritos não têm forma. Entretanto, eles acrescentaram assim: não tem forma para vós; quer dizer, não têm forma para nós os homens, mas lá para eles tem, entre eles. Quer dizer, é um plano completamente diferente o plano do espírito.
Quanto ao sexo, por exemplo, corresponderia no perispírito a um plexo. Plexo quer dizer um centro de força, um centro energético. Cada órgão do nosso corpo material corresponde a um plexo do perispírito. A um centro de forças do perispírito. É esta a correspondência que existe. Entretanto, nos espíritos em estado inferior, quando eles terminam de morrer, passam para o plano espiritual sem compreenderem o que houve com eles, eles continuam – graças à sua imaginação e às suas sensações que permanecem ligadas a vida material –, eles continuam se vendo como se estivessem num corpo material. Eles têm toda ilusão de um corpo físico.
Isso é muito comum de se verificar nas sessões espíritas onde se manifestam espíritos que morreram e não sabem que morreram. Porque eles estão se sentindo no seu corpo, estão se sentindo vivos. E como eles tinham aqui na Terra uma ideia errada da morte, pensando que a morte era a destruição total do ser, eles não podem acreditar que estão mortos, que morreram.
Nós temos também não apenas no espiritismo, mas em outras religiões e particularmente no judaísmo, temos uma série de informações bastante curiosas a respeito. Os livros dos rabinos judeus, não só da antiguidade, mas também dos modernos, nos contam fatos, episódios muito curiosos. Por exemplo, existe a Coleção Judaica, publicada aqui pela Difusão Europeia do Livro com a tradução de vários livros de rabinos judeus da Europa, particularmente da Europa Oriental, onde se acentuaram mais as produções de livro nesse sentido. Então nós encontramos ali alguns rabinos que contam fenômenos, fatos puramente espíritas nas suas lembranças, nas suas memórias, de espíritos que vinham falar com eles, rabinos, pedindo auxílio como se estivessem vivos ainda. Então eles costumavam dizer assim: você está no mundo da ilusão, você está pensando que está vivo, mas não está. Você já morreu.
De maneira que esse aspecto do espiritismo, de que muita gente acha que deve e pode zombar, porque acha que é absurdo uma pessoa que morreu não saber que morreu, aparece também em outras religiões do mundo, seguidas por longa tradição de manifestações nesse terreno. E realmente agora as próprias investigações parapsicológicas também estão confirmando essa verdade.
Então posso lhe responder assim: aquilo que “O Livro dos Espíritos” diz que “os espíritos não tem sexo”, é uma verdade absoluta no tocante ao espírito puro, não ao espírito dotado de um corpo espiritual.
Quando o espírito está no corpo espiritual, ele não tem o sexo do corpo físico, os órgãos físicos, mas ele tem a correspondência energética desses órgãos, entende?
Agora, quando o espírito não está nem no corpo material, nem no corpo espiritual, mas está independente, livre na sua posição de espírito, ele não tem sexo, porque entre os espíritos não há a divisão sexual. Todos os espíritos, sejam eles de homens ou de mulheres, são espíritos apenas. Por isso Jesus no Evangelho, quando perguntaram sobre a situação do judeu que tendo se casado com sete irmãs, não, da judia que ia se casar com sete irmãos, porque de acordo com a lei, a mulher do irmão mais velho quando o irmão morria se casava com o irmão seguinte e assim por diante, então ela teria se casado com sete irmãos. Mulher de que ela será no mundo espiritual? Jesus respondeu: os espíritos são como os anjos, de maneira que não há nem homem e nem mulher entre eles, não há esse problema.
Locutor - Estamos transmitindo diretamente do auditório da Rádio Mulher, entrevistando diretamente os nossos ouvintes que nesta noite nos brindam com as suas presenças.
Plateia - Boa noite professor Herculano, eu sou Valdo dos Santos Bezerra, moro a Rua Rui Barbosa, 1041, Campo Belo.
A minha pergunta, inicialmente não se prende tanto ao espiritismo. Eu sou interessado assim em literatura, assuntos arqueológicos e tudo relacionado a isso. E lendo há tempos um livro “Antes dos Tempos Conhecidos” de Peter Kolosimo, eu deparo numa das primeiras páginas, uma fotografia, uma fotografia que me deixou bastante surpreso, pois não julgava que pudesse ainda existir. É um ser que ele tem mais ou menos a capacidade intelectual que teria o homem de Neandertal, já uma raça extinta há bastante. Foi descoberto na África, mais precisamente perto do Marrocos. É uma tribo, talvez isolada.
J. Herculano Pires - Sim.
Plateia - Agora logicamente me deixou surpreso. E não encontrei, sendo espírita, uma explicação para tal. Pensei até, inicialmente, que a experiência talvez tivesse falhado de alguma forma, algo relacionado à genética, né? Tivesse falhado e tivesse produzido quase que um monstro, para nós, século XX, com a inteligência que temos, né? Depararmos com um cérebro que não tem a capacidade de mil centímetros cúbicos. Agora nessa última revista Planeta apareceu um artigo na qual certos cientistas julgam que ao invés do homem descender do macaco, algo se processa ao contrário. É o macaco que descende... quer dizer, é o contrário.
J. Herculano Pires - É o homem que degenerou em macaco?
Plateia - É... isso devido a mitos...
J. Herculano Pires - Bom, essa fotografia que o senhor diz que aparece no livro, é uma fotografia de um espécime vivo, de um indivíduo que foi encontrado nessa situação primitiva?
Plateia - Exatamente.
J. Herculano Pires - Mas eles conseguiram verificar a existência de uma tribo ou de um clã, ou não conseguiram nada?
Plateia - Essa tribo existe. De acordo com o que o autor narra, essa tribo existe, e infelizmente eu não tinha a intenção de fazer a pergunta, eu poderia ter colhido dados mais assim precisos desse livro. Mas é muito fácil, qualquer pessoa que tenha lido esse livro “Antes dos Tempos Conhecidos”, de Peter Kolosimo...
J. Herculano Pires - Eu já vi esse livro, mas não li.
Plateia - Vai deparar logo nas primeiras páginas com a tal fotografia. Minha esposa, ela também viu e ficou bastante impressionada com isso.
J. Herculano Pires - Sim, mas aí do ponto de vista espírita, que é o que nos interessa, não importa, portanto, o fato em minúcias, apenas o ponto de vista espírita. Do ponto de vista espírita, não vejo motivo nenhum para susto, porque do ponto de vista espírita a evolução é um processo contínuo e ela traz consigo os seus resíduos.
Nós podemos ver na Terra mesmo, a diferença enorme que existe entre os homens civilizados e tribos africanas, por exemplo, como aquelas tribos existentes na África e já bastante conhecidas do mundo civilizado, de povos ainda rudimentares, de povos que ficaram, por assim dizer, atrasados no processo evolutivo.
Existem também entre os animais numerosos fatos semelhantes. Nós sabemos que na evolução das espécies, encontramos certas espécies antediluvianas, no sentido de classificação, que ainda estão vivas na Terra. A tartaruga mesmo é um desses elementos, continuam a viver. E esses fatos têm dado argumentos aos antievolucionistas para dizerem que não existe evolução. Mas na teoria ampla da evolução, nós sabemos que essas espécies constituem aquilo que chamamos os resíduos da evolução, tanto que eles vão ficando nos mundos em que a evolução avança e desenvolve formas novas, num crescendo contínuo, elas vão ficando como uma espécie de resíduo mesmo, reduzido sempre a uma produção pequena, determinada a certos lugares e não têm a amplitude das demais espécies que florescem e se desenvolvem nesses mundos. De maneira que não é nada demais que na espécie humana tenha sido possível a permanência ainda na Terra de alguns elementos de raças que já foram extintas.
Eu não sei até onde podemos dar veracidade a essa pesquisa desse homem, porque sabemos que nos livros publicados a respeito ultimamente, há muitos livros fantasiosos, porque uma vez que esses problemas despertaram muito a curiosidade humana, se fez realmente uma indústria de livros fantasiosos sobre problemas desta natureza.
Entretanto, vamos aceitar como bom esse livro e como verdadeiro. Eu não acho aí nenhum motivo de contradição. É possível que existam nessas raças extintas, dessas raças extintas alguns remanescentes em regiões bastante distantes do mundo, onde foi possível permanecerem elementos dessas raças. É possível porque esses elementos irão se desenvolvendo lentamente de acordo com o processo evolutivo, e a evolução se serve sempre das formas que ainda têm utilidade.
Por exemplo, nós sabemos que as formas funcionam no processo evolutivo como verdadeiros filtros. O princípio inteligente ou a essência espiritual atravessa as formas de encarnação em encarnação. Mas enquanto ele não atinge a condição suficiente para passar para uma forma superior, ele continua a encarnar-se em formas inferiores. E como existem atrasos naturais na evolução, porque há condições diversas do processo evolutivo que às vezes não permitem o aceleramento evolutivo do indivíduo que está passando por aquilo ou da unidade evolutiva, se assim podemos dizer, então existem também esses resíduos que permanecem principalmente nos mundos inferiores.
O nosso mundo, como o senhor sabe, é um mundo de provas e expiações. É um mundo inferior. Está sujeito a ter, como tem, as mais diferentes condições, os mais diferentes graus de evolução. Se nós estivéssemos num mundo superior, não teríamos a variedade de tipos humanos que temos aqui, indo desde o idiota até o gênio, desde o criminoso nato até o santo.
Nós vemos que a escala é muito variável da evolução em nosso planeta. Então aqui no nosso planeta pode haver muitas dessas surpresas, mas está perfeitamente dentro da doutrina espírita.
Locutor - Continuamos então com mais uma pergunta.
Plateia - Eu gostaria de fazer outra pergunta. É o seguinte: sabemos que os espíritos agem sobre a natureza. Isto posto, eu faço uma pergunta em duas partes: primeira, qual o grau evolutivo dos espíritos que realizam essas ações? Segundo: se essas ações obedecem a leis mutáveis ou se estão sobre a decisão e responsabilidade dos espíritos que as comandam?
J. Herculano Pires - “O Livro dos Espíritos” tratando desse assunto diz, aliás, de maneira bem clara, que os espíritos incumbidos de trabalhar os elementos da natureza, os elementos naturais são sempre espíritos inferiores.
Há mesmo um trecho em que Kardec diz assim: “primeiro eles trabalham, eles trabalham obedecendo puramente aos seus instintos naturais que levam a funcionar naquele determinado plano da natureza em que se encontram. Depois eles se esclarecem, eles aprendem, e então eles passam a trabalhar em plano mais elevado”.
Os espíritos, segundo o espiritismo, são considerados como uma das forças da natureza. Assim como nós temos os animais que trabalham em toda natureza, quando, por exemplo, Pasteur descobriu o mundo dos micróbios e disse que havia animaizinhos pequeninos trabalhando dentro da natureza, em todas as coisas, e que podiam inclusive infiltrar-se no corpo humano, houve um escândalo científico no tempo – como nós sabemos, Pasteur foi perseguido e teve até de fugir, teve de se recolher numa província lá da França onde sem querer ele foi encontrar a vitória das suas teorias. Ora, então é meio difícil para muitas pessoas entenderem isto. Mas assim como existem os micróbios, os vírus, os elementos pequeninos da microbiologia, que vivem e trabalham na natureza, assim como existem os corais marinhos que conseguem construir ilhas no oceano, e os animais que trabalham nos rios, nas matas, por toda parte, produzindo elementos diferentes, assim existem dentro da terra, nas entranhas da terra, animais que também estão trabalhando o próprio elemento terreno.
Nós sabemos disso porque isso hoje já é conhecido cientificamente, mas o espiritismo traz uma nova dimensão para isso. O espiritismo mostra os espíritos agindo na natureza em toda parte. Espíritos ainda em estado inferior trabalhando dentro da terra, trabalhando nas águas, trabalhando no meio do mato, nas árvores, nas florestas, espíritos que são incumbidos de trabalhos na natureza. Assim, quando Kardec disse que os espíritos são as forças da natureza, ele coloca os espíritos na mesma posição desses elementos materiais que trabalham a natureza do ponto de vista visível.
Os espíritos existem, portanto, numa escala infinita de evolução. Desde o espírito mais primitivo, que não tem ainda nenhuma consciência, até o espírito superior.
Eu lembro sempre uma pergunta, uma resposta do “Livro dos Espíritos”, a resposta à pergunta 540. No final dessa resposta, o espírito disse a Kardec: “admirável lei de harmonia que o vosso limitado espírito ainda não pode compreender. Tudo se encadeia no universo, desde o átomo até o arcanjo que por sua vez já foi átomo”. Compreendendo-se bem isso, nós vemos a escala infinita dos seres. Dentro do átomo, na sua vibração contínua, existe uma energia viva, uma energia espiritual que ali está presente e que vai evoluir, que vai se desenvolver através das formas subsequentes da natureza até atingir o plano do arcanjo, até se individualizar, desenvolver as suas potencialidades internas e atingir o plano do arcanjo que é infinitamente superior à condição humana. Não é?
Então, quer dizer, em todo esse processo evolutivo, nós sabemos que os espíritos estão sempre trabalhando de acordo com a sua condição dentro da evolução, dentro da escala evolutiva.
O Evangelho do Cristo em espírito e verdade, não segundo a letra que mata, mas segundo o espírito que vivifica. O nosso ouvinte, o menino Carlos Eduardo Scaffi, abriu o Evangelho ao acaso, oferece-nos hoje a seguinte passagem: em Gálatas do capítulo terceiro, do versículo primeiro ao oitavo.
“Ó insensatos Gálatas, quem vos fascinou a vós ante cujos olhos foi representado Jesus Cristo como crucificado? Só isto quero saber de vós. Recebestes o espírito por obras da lei ou pela mensagem da fé? Sois tão insensatos. Tendo começado no espírito, estás agora vos aperfeiçoando na carne. Sofreste tantas cousas em vão? Se é que na verdade foram em vão. Aquele que vos subministra o espírito e opera milagres entre vós, acaso falou ele por obras da lei ou pela mensagem da fé? Justamente como Abraão creu a Deus e foi lhe imputado para justiça, sabei, pois, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão."
O problema que Paulo enfrentava ao se referir aos Gálatas, enviando-lhes essa carta, era um problema de orientação religiosa, de orientação cristã, dentro do Evangelho. Paulo pretendia orientar com segurança as igrejas nascentes naquela época, quando o cristianismo estava se expandindo pelo mundo, começando a se desenvolver, ele queria dar toda segurança possível dentro dos princípios do cristianismo, porque as igrejas quase sempre eram logo de início influenciadas pelas religiões pagãs dominantes nas regiões em que elas nasciam. Nós conhecemos bem o poder de influenciar das religiões tradicionais, em todos os tempos, onde elas existem, dominando populações inteiras e quando surge uma inovação religiosa, uma renovação religiosa, elas naturalmente procuram defender-se e influenciam aquelas coletividades que se afastam do seio dessas religiões. Paulo lutava contra as infiltrações do paganismo, das religiões pagãs no meio cristão, da mesma forma que na Judeia ele lutava contra as infiltrações do judaísmo.
Nós sabemos que o cristianismo nasceu como uma verdadeira reforma do judaísmo. Jesus era judeu, foi criado, portanto, no meio judeu, recebeu educação judaica, formou-se na lei judaica. Entretanto, ele não ficou adstrito a essa condição; ele procurou superar os conhecimentos e as determinações legais da igreja do seu tempo e partiu para uma renovação conceptual da religião judaica. Nós sabemos que ele vinha já com essa missão, era esse o seu trabalho, era essa a sua razão de ser na encarnação entre os homens; ele vinha para remodelar o mundo, para dar um impulso novo à evolução do planeta em que nos encontramos, para fazer com que nossa humanidade progredisse. No seu tempo, nós sabemos que era prevalecente a chamada lei mosaica. Dentro dessa lei, que pertence às escrituras sagradas e que está na Bíblia, dentro dessa lei tudo era determinado de acordo com as regras da tradição judaica. E a lei devia ser obedecida em tudo e por tudo. Quando nós vemos nas escrituras a expressão “obras da lei”, nós estamos diante das práticas rituais do judaísmo.
Eram essas as obras da lei. Hoje nós confundimos isto. Muitas vezes criaturas que pertencem a ramos diferentes do cristianismo, acusam o espiritismo de querer a salvação pelas obras e dizem que o apóstolo Paulo afirmou que a salvação vem pela fé e não pelas obras. Sim, mas o apóstolo Paulo não disse apenas obras, ele disse obras da lei, e quando ele se referiu as obras da lei, ele que era um doutor da lei no templo de Jerusalém, ele estava se referindo aos ritualismos do culto judaico. Os judeus eram obrigados a submeter-se a esses rituais e a praticar as obras referentes a eles. Mas essas obras não consistiam naquilo que nós hoje chamamos as obras de caridade, de assistência social, as obras que realmente nos ligam à humanidade e ao cumprimento dos nossos deveres humanos. Não! Constituíam apenas obras no sentido simbólico referentes às práticas judaicas. Assim não há nenhuma razão para, por exemplo, dizermos que o espírita não se salva pela fé, mas sim pelas obras, pela prática da caridade através das obras.
Não. Paulo chamava atenção dos Gálatas, como chamou de outros cristãos primitivos, para o problema da fé, da fé em Cristo, a fé que não nascia das obras da lei, que não provinha dos ensinos do judaísmo, mas sim do cumprimento da profecia messiânica que se realizou em Jesus. Ora, esta fé está presente no coração de todos aqueles que são espíritas, porque o espiritismo, como desenvolvimento histórico, natural e profético do cristianismo, o espiritismo é a continuidade, portanto, do próprio cristianismo, o cumprimento da promessa do consolador do espírito da verdade. E dentro do espiritismo, todos aqueles que o praticam, realizando obras de assistência, obras de socorro ao próximo, entretanto se fazem essas obras é por impulso da fé que trazem em seus corações, a fé em Jesus Cristo nosso senhor.
Chegamos ao final do nosso programa de hoje e agradecemos aos ouvintes do auditório e de casa a colaboração que nos deram em busca da verdade. Esperamos que nos enviem suas perguntas por carta e telefone para os demais programas do mês. Por carta, à Rádio Mulher, Rua Granja Julieta, 205, São Paulo. Por telefone, os seguintes números: 269.4377 e 269.6130 em São Paulo. Ouçam as respostas pela Rádio Mulher 730khz, pela Rádio Morada do Sol de Araraquara 640khz e pela Rádio Difusora Platinense de Santo Antônio da Platina, Paraná, 780khz. Todas as semanas, neste dia e neste horário.
No Limiar do Amanhã, um convite ao futuro.
Antes da nossa reunião pública, amigos da Guanabara mostraram-nos duas reportagens recentemente lançadas sobre a eutanásia. Éramos um grupo de irmãos debatendo assuntos da atualidade e o problema proposto despertou-nos a atenção. Depois de opiniões variadas na conversação em curso, o horário nos chamou para as tarefas da noite.
Aberta a nossa reunião de estudos, O evangelho segundo o espiritismo, com surpresa para nós todos, ofereceu-nos o item 28 do capítulo V, sobre a questão da morte aplicada em nome da benevolência humana.
Diversos companheiros comentaram a lição, após o que Emmanuel, o nosso caro benfeitor espiritual, compareceu com a página Eutanásia e vida.
Programa 94
PROGRAMA 94
Caso tenha interesse em ouvir as perguntas separadamente, cada uma delas acompanha o áudio específico. Para ouvir o áudio completo do programa, utilize esta opção:
Gravação do programa No Limiar do Amanhã, para o dia 30 de dezembro de 1972, último programa de 1972.
No Limiar do Amanhã, um desafio no espaço.
As Américas estão abaladas com a tragédia de Manágua, capital da Nicarágua, destruída pelo violento terremoto de 23 último. O ano de 1972 foi uma sucessão de catástrofes em todo o mundo. As provas coletivas se intensificam na proporção em que se completa esse ciclo evolutivo do planeta. É a lei que se cumpre, mas a misericórdia de Deus alivia o peso dos nossos compromissos. O consolador está presente e atenua as nossas provações com a luz da esperança. A Terra se apressa para uma fase nova, com a regeneração da humanidade.
Provas coletivas são resgates de débitos em conjunto. Não podemos avançar para um mundo de regeneração, arcados ao peso de provas e expiações. Temos de resgatar os nossos débitos para iniciar uma vida nova. Depois da tempestade, vem a bonança; após a morte, temos a ressurreição. O próprio Cristo sujeitou-se aos compromissos humanos para morrer na cruz. Mas ao morrer, ensinou-nos que todos ressuscitaremos.
Existe a ressurreição em espírito no corpo espiritual, como ensina o apóstolo Paulo em sua primeira epístola aos Coríntios. E existe a ressurreição da carne que Jesus ensinou a Nicodemos. O espírito ressuscita na carne através da reencarnação. Mas o ciclo das reencarnações se esgota para cada espírito na proporção em que ele evolui. Ajudemos o mundo a evoluir, melhorando-nos a nós mesmos.
O novo ano que se aproxima trará novas provações, mas trará também novas oportunidades de progresso e novas esperanças. É tempo de fazer exame de consciência. Examinemos à luz dos princípios evangélicos. O mundo é o reflexo de nós mesmos. Façamo-nos menos egoístas, menos orgulhosos e vaidosos, menos arrogantes e mais humildes. Aprendamos a amar o próximo, a não julgá-lo, nem condená-lo com a medida estreita do nosso juízo.
Entremos no ano novo de coração aliviado, de mente arejada, pensando nos que sofrem e procurando ajudá-los. Deus é amor; só o amor nos redime. Se soubermos amar, afastaremos as trevas que se adensam na atmosfera do mundo. Entremos com amor em 1973.
No Limiar do Amanhã, um programa desafio. Produção do Grupo Espírita Emmanuel, transmissão número 94, segundo ano. Direção e participação do professor Herculano Pires.
Esse programa é transmitido nesse dia e nesse horário, todas as semanas pela Rádio Mulher de São Paulo 730khz, pela Rádio Morada do Sol de Araraquara 640khz e pela Rádio Difusora Platinense de Santo Antônio da Platina, estado do Paraná, 780khz. Todas as semanas nesse dia e nesse horário.
Esse programa não é de propaganda religiosa, mas de esclarecimento espiritual à luz da razão. Não temos igreja, nem procuramos adeptos. Queremos a verdade, só a verdade, nada mais que a verdade, porque a verdade nos libertará. E se você provar que está com a verdade, ficaremos com você.
Perguntas e respostas. Faça suas perguntas por carta ao programa No Limiar do Amanhã, Rua Granja Julieta, 205, ou pelos telefones 269.4377 e 269.6130, durante a semana no horário comercial.
Ao iniciar as respostas das perguntas de hoje, quero desejar a todos os ouvintes, em nome de toda equipe do programa No Limiar do Amanhã, uma entrada feliz no ano novo. Que Deus nos permita a todos sairmos da rotina para uma compreensão mais precisa da finalidade da nossa vida terrena. Não esbanjemos tempo e energia em 1973, mas procuremos aplicar todos os nossos esforços no sentido da transcendência espiritual. Cada ano deve ser uma nova etapa da evolução espiritual que nos propusemos ao nos reencarnarmos.
Pergunta nº 1: Sacramento
Locutor - O ouvinte Guilherme Vieira Lins, da Rua Caçador, na Vila Maria, nos pergunta:
Professor, o senhor disse que no espiritismo não há cerimônias religiosas de casamento, porque essas cerimônias são baseadas em promessas de sacramentos que quer dizer sacrifício e que os mesmos são para as religiões de crença no juízo final, assim como as seitas protestantes e católicas. Então pergunto: por que a umbanda e outros centros espíritas de terreiros realizam casamentos com cerimônias nas suas tendas ou terreiros, onde os cônjuges fazem juras e promessas de fidelidade etc.?
J. Herculano Pires - Antes de mais nada, eu gostaria de esclarecer que eu não dei essa explicação assim tão ampla sobre o motivo por que não há cerimônia religiosa de casamento no espiritismo. Dizer que o sacramento implica sacrifício não é bem verdade. Os sacramentos são considerados como atos mágicos, atos que trazem em si um poder divino. Ora, no espiritismo nós não consideramos a realidade desse poder nas formas sacramentais, por isso mesmo não temos sacramento nenhum no espiritismo. O espiritismo se limita a considerar as relações dos espíritos com os homens num plano racional, porque quando queremos nos elevar, nós temos não de recorrer a amuletos, sacramentos e outras coisas semelhantes, mas sim a um esforço constante para a nossa própria reforma interior, para a nossa remodelação íntima. Dessa maneira, no tocante ao sacramento do batismo e ao sacramento do casamento, por exemplo, que são os socialmente mais importantes, o espiritismo não os adota.
O casamento no espiritismo é civil, o batismo no espiritismo é aquele batismo de que o próprio João Batista falou, que o Cristo ao ouvir atrás dele não batizaria em água, mas sim traria um batismo novo, o batismo do fogo, o batismo da iniciação nos princípios necessários ao esclarecimento do espírito e nas provas a que ele se submete na vida terrena.
Ora, no espiritismo o batismo não é, portanto, realizado como o sacramento. Não obstante, os espíritas não deixam de ser batizados, porque batismo quer dizer iniciação, introdução numa vida nova. Todo espírita, ao nascer, já inicia-se numa nova existência. E nesse momento, como nós sabemos, em todas as famílias espíritas, costuma-se fazer uma prece pedindo a bênção de Deus, a bênção dos bons espíritos para aquela criatura que está nascendo.
Este é o batismo espírita, batismo em espírito e verdade, batismo de luz, de orientação e não uma prática sacramental.
O senhor diz que, entretanto, na umbanda e outros centros espíritas de terreiro, realizam-se casamentos com cerimônias. Para começar, a umbanda não é espiritismo. Umbanda é umbanda. Umbanda tem a sua própria doutrina, umbanda tem os seus ritualismos e o espiritismo não tem ritual nenhum. A umbanda tem todo um processo religioso adaptado às práticas religiosas dos povos primitivos que o espiritismo não adota de maneira alguma.
Dessa maneira, o senhor faz confusão quando diz umbanda e outros centros espíritas de terreiro. Não existe centro espírita de terreiro. Quando se trata de terreiro, trata-se do sincretismo religioso afro-brasileiro em que nós encontramos a umbanda, a quimbanda, a aruanda, o candomblé e assim por diante. Numerosas formas religiosas das religiões primitivas da África adaptadas ao Brasil e que foram trazidas aqui pelo tráfico negreiro, como nós sabemos.
Dessa maneira, o senhor não deve pensar que existe casamento espírita porque na umbanda se faz casamento. A umbanda não é espiritismo. E no espiritismo não existe o sacramento do casamento e nem outro qualquer sacramento.
Eu vou oferecer ao senhor um presente de irmão para que o senhor se aprofunde mais no conhecimento do espiritismo. Ofereço-lhe, em nome deste programa e da editora Edicel, o livro “Iniciação Espírita” que o senhor pode retirar a partir de segunda-feira no horário comercial no escritório da Rádio Mulher, à Rua Barão de Itapetininga, 46, 11º andar, conjunto 1.111.
Locutor - Professor, a pergunta seguinte é da senhora Maria de Lourdes Oliveira, da Rua Pedro Dias de Campos, Vila Matilde, que nos diz o seguinte:
Estou frequentando um centro espírita chamado Jesus nos Guie, orientado pelo Sr. Vicente, no Tatuapé. Eu e meu marido não dormíamos à noite, e pela manhã estávamos com dores em todo o corpo. O Sr. Vicente, do centro, disse que é o espírito de minha mãe que está nos acompanhando, mas acontece que faz somente três anos que minha mãe morreu. O senhor acha que ela já pode se manifestar? O Sr. Vicente diz também que eu deveria dormir com a luz acesa e deixar todas as noites um copo de água para beber de manhã em jejum. O que o senhor pode me dizer disso?
J. Herculano Pires - Eu gostaria que a senhora realmente continuasse a estudar o problema nos livros espíritas, que a senhora se preocupasse bem com o ensinamento que o espiritismo nos dá a respeito. A senhora precisa começar a ler com urgência o livro “Iniciação Espírita” de Allan Kardec. Não confundir esse livro com uma coleção de pequenos livros chamada “Iniciação Espírita”, com vários autores, não. “Iniciação Espírita” é um livro de Allan Kardec. Lendo este livro a senhora vai tomando conhecimento melhor do assunto. Ao mesmo tempo, a senhora precisa ler todos os dias o “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, abrindo o livro ao acaso, após uma pequena prece. A senhora pode fazer a prece do Pai Nosso, por exemplo, e em seguida abrir o livro ao acaso. Então, aquele trecho que cair diante dos seus olhos, aquela mensagem que ali vier, a senhora lê e deve ler mesmo se possível em voz alta. Então, lendo isso, a senhora se informa dos problemas da manifestação espírita e das relações que temos com os espíritos, e da maneira pela qual nós devemos proceder.
Continuando a frequentar o centro em que a senhora se encontra, a senhora deve naturalmente seguir as sessões com o devido respeito e atenção. Eu não concordo com algumas coisas que o Sr. Vicente disse, se é que a senhora está reproduzindo exatamente o que ele informou. Não acho, não vejo motivo nenhum para a senhora dormir de luz acesa, isso até é prejudicial à própria saúde física. A senhora deve dormir com a luz apagada. Deixar um copo perto, com água, perto da mesa, perto da cama numa mesa ou numa cadeira, como a senhora quiser, é útil, porque desde que a senhora faça uma prece pedindo aos espíritos que fluidifiquem essa água, a senhora tem um meio, um veículo para receber auxílio dos espíritos.
Mas quanto ao problema de sua mãe ter morrido há apenas três anos, isso não impede absolutamente que ela esteja presente ou que procure comunicar-se com a senhora. Os espíritos podem comunicar-se logo após a morte, imediatamente, dependendo da sua condição espiritual. No caso de sua mãe, entretanto, não acredito que seja ela que a perturba. Os espíritos que nos são afeitos estão ligados a nós, que nos estimam, procuram naturalmente auxiliar-nos com suas boas vibrações. Entretanto, a senhora deve orar por sua mãe, orar por ela.
Eu lhe aconselharia, sem querer afastá-la absolutamente do centro que está frequentando, a fazer uma visita ao centro espírita Renovador, ou melhor, Renovação, à Rua Espírita 116, no Lavapés, no bairro do Lavapés. Ali a senhora pode ir numa segunda-feira ou numa sexta-feira, como melhor entender, como mais fácil lhe for. Dirigindo-se a este centro, as sessões ali começam às 20h30. A senhora chegando lá, procura conversar com um dos dirigentes do centro, expor o seu problema e ouvir o que ele lhe diz a respeito.
Locutor - Temos uma segunda pergunta da nossa ouvinte: li no livro de Jó, dezesseis, dezessete, o trecho que segue: “o meu espírito se vai consumindo, os meus dias se vão apagando e só tenho perante mim a sepultura”. Gostaria que o senhor me explicasse esse trecho, professor.
J. Herculano Pires - O livro de Jó, como, aliás, todos os livros bíblicos não são apenas livros espirituais no sentido de ensino espiritual. São livros também literários. Eles pertencem à literatura judaica, religiosa sem dúvida, mas literatura.
É preciso então para ler esses livros compreender-se o momento em que o autor está escrevendo num determinado sentido e o momento em que ele trata de um aspecto realmente espiritual.
Nesse trecho do livro de Jó, que eu não me lembro no momento dos seus termos exatos, mas acredito que a senhora registrou exatamente o texto aqui, nesse trecho a senhora tem que se lembrar que Jó está falando como homem, como o homem encarnado, angustiado diante da vida. Há duas fases nesse livro: a fase do homem que se angústia diante das suas provas, das necessidades que ele enfrenta no mundo, das agruras, das provas a que ele se submete, e outra em que o espírito se levanta fortalecido na esperança da sua salvação e, portanto, da sua renovação.
Esse trecho corresponde precisamente à fase em que Jó está falando como homem, o homem em desespero, que vai posteriormente mostrar-se reabilitado na continuação da leitura que a senhora poderia fazer do livro.
É necessário ter muito cuidado na leitura desses livros por isso. A Bíblia, ensinada como sendo a palavra de Deus, pregada em toda parte assim, dá impressão de que cada uma de suas frases, cada um dos seus trechos é uma lei, mas não é verdade. Os livros da Bíblia são livros que nos ajudam a compreender muita coisa, mas que se nós não soubermos lê-los, podemos também nos confundir na sua leitura.
Eu queria lhe oferecer um presente de irmão que é o livro “Iniciação Espírita” de Allan Kardec. A senhora pode procura-lo no escritório da Rádio Mulher no endereço que estamos dando constantemente neste programa a partir de segunda-feira no horário comercial.
Locutor - Professor, o senhor José Alves Ferreira, da Rua Número 17, Vila Rosa, Estrada de Vila Ema, nos conta o seguinte:
Tive um sonho com um industrial de renome, encontrei-o e conversamos alguns instantes e ele me disse que havia morrido há dias atrás. Então eu lhe disse: e agora? E ele fez um gesto que não sabia o que fazer. Mostrei-lhe então as palmas de minha mão e ele me disse que não tinha nada e que realmente nós sempre voltávamos à zero, e acordei. Eu não sabia que este senhor havia morrido, quando um amigo veio visitar-me e informou o ocorrido dizendo que esse senhor havia morrido há alguns meses atrás. Gostaria que o senhor explicasse o sentido desse sonho.
J. Herculano Pires - Os sonhos, como nós sabemos pelo espiritismo, eles são bastante complexos. Eles não são assim com um sentido, uma simbologia expressa de maneira clara e precisa de acordo com as várias interpretações que são oferecidas dele, tanto no campo das superstições quanto no campo da própria ciência. Assim, por exemplo, o “Livro de Sonhos”, de Freud, na psicanálise, diante do espiritismo sofre muitas críticas, porque a interpretação dos sonhos não pode ser absolutamente uma interpretação dada num sentido apenas.
Quando nós dormimos, o nosso espírito se afasta do corpo. Então ele tem experiências na vida espiritual. O senhor poderia ter encontrado com este industrial, que era o seu amigo, e conversado com ele, mas o espírito não guarda lembrança total do que conversou com outros espíritos no plano espiritual durante a ausência do corpo. Ao voltar para o corpo e nele se integrar, o espírito traz alguma lembrança, muitas vezes bastante vaga daquilo que se passou na sua vida espiritual.
Essa lembrança, entretanto, se projeta no cérebro, reunindo-se ali com o que ocorreu no cérebro durante a ausência do espírito. Enquanto estamos fora do corpo, dormindo, o nosso cérebro continua vibrando, as células continuam a funcionar, evocando episódios da nossa vida de vigília, do nosso momento em que estávamos acordados, lembranças que vão ocorrendo no cérebro, umas atrás das outras.
Ao mesmo tempo, há influências sobre o cérebro produzidas por efeitos que ocorrem ao nosso redor enquanto dormimos. Barulhos no quarto, prosas no quarto vizinho, pessoas que passam na rua proseando, barulho de automóveis, de aviões e assim por diante. Todas essas coisas repercutindo no cérebro produzem imagens, imagens que se misturam aos sonhos. Vem daí a incongruência natural de quase todos os sonhos.
O senhor não deve, portanto, se preocupar com os pormenores do sonho que teve. O que o senhor deve considerar é que teve a felicidade de encontrar-se no plano espiritual com o seu amigo já falecido e conversar com ele. E certamente desta conversa resultou, tanto para ele quanto para o senhor, benefícios que, embora o senhor não se lembre no momento, ficarão na sua memória profunda e se manifestarão nos momentos oportunos da sua vida.
Agradeça a Deus esta oportunidade e procure compreender melhor o problema dos sonhos à luz do espiritismo. Eu lhe faço o presente de irmão também do mesmo livro que já dei a outros aqui: “Iniciação Espírita” de Allan Kardec. O senhor pode retirar este livro como um presente do programa No Limiar do Amanhã e da editora Edicel. Retira no escritório da Rádio Mulher, à Rua Barão de Itapetininga, 46, 11º andar, conjunto 1.111, a partir de segunda-feira.
Locutor - A ouvinte Luiza Greco, residente à Alameda Santos, nos telefonou perguntando sobre como deverá proceder com a água fluidificada pelos espíritos. Ela gostaria de saber se quando a água estiver se acabando, pode-se juntar mais água de modo que ela não se acabe. E se teria o mesmo valor depois disso, ou se não, se pode juntar mais água, pois senão ela perderia o seu valor.
J. Herculano Pires - Há várias opiniões a respeito desse problema da água fluidificada no meio espírita. Entretanto, nós sabemos que os espíritos se servem da água simplesmente como um veículo para transmissão material de fluídos que podem nos beneficiar. São medicamentos que são transmitidos à água por via fluídica. Ora, se a água está se esgotando e se a senhora tem necessidade de continuar, a senhora pode adicionar mais água de acordo com a minha opinião pessoal a respeito, da minha experiência no assunto. A senhora pode adicionar mais água. Mas neste momento em que adiciona, faça uma prece pedindo aos espíritos que ajudem a fluidificação também daquela água adicionada. Isso quer dizer que nesse momento a senhora evoca, por assim dizer, o auxílio dos espíritos superiores que virão em seu auxílio, fazendo, portanto, que aquela água seja inteiramente nova ou que se misture com a outra.
Dessa maneira, a senhora poderá agir tranquilamente, sem medo de estar errando, porque o valor da sua prece fará com que os espíritos realmente a auxilie.
Eu queria lhe dar um presente de amigo, ou melhor, de irmão. É o livro “Iniciação Espírita” de Allan Kardec. A senhora pode retirar este livro no escritório da Rádio Mulher no endereço que temos dado aqui constantemente, a partir de segunda-feira.
Locutor - Professor, o ouvinte Guilherme Vieira Lins, volta a nos escrever perguntando:
Como interpretam os espíritas kardecistas a filosofia orgulhosa de certa gente que costuma dizer que devemos ter amizades somente com pessoas ricas e de posição, porque são pessoas que venceram na vida e essas pessoas nos ensinam a viver, e não com fracassados, pois os fracassados são pessimistas, já que nem todos têm a mesma sorte? Todos sofremos provações. Por isso gostaria que o senhor me dissesse qual a sua opinião sobre os orgulhosos que arrastam essa filosofia.
J. Herculano Pires - O senhor já condenou essa filosofia na sua própria pergunta, lembrando que são orgulhosas as pessoas que a adotam. Na realidade, é isso mesmo. Mas nos cabe aqui perguntar o seguinte: o que é vencer na vida? Vencer na vida é ganhar dinheiro? É subir na escala social? É adquirir conhecimentos e triunfar sobre a ignorância da maioria? Não. Vencer na vida para os espíritas, para o espiritismo é a pessoa evoluir, progredir espiritualmente. É ela realmente aproveitar a sua existência atual para triunfar sobre o mundo e não se deixar guiar pelas fascinações e as ilusões do mundo.
Eu lhe ofereço um livro, como um presente de irmão: “Tesouro dos Espíritas”, de Miguel Vives, que o senhor pode retirar no escritório da Rádio Mulher, a partir de segunda-feira, no endereço que temos dado neste programa.
Pergunte amigo ouvinte, escrevendo para o programa No Limiar do Amanhã, Rua Granja Julieta, 205, São Paulo ou telefonando para 269.4377 ou 269.6130 e aguarde as respostas pela Rádio Mulher de São Paulo 730khz, Rádio Morada do Sol de Araraquara 640khz, e Rádio Difusora Platinense de Santo Antônio da Platina, estado do Paraná, 780khz. Todas as semanas nesse dia e nesse horário. E na próxima quarta-feira, dia 03, às 20h30, teremos gravação de auditório à Rua Granja Julieta, 205, São Paulo, última travessa da Avenida Santo Amaro. Venha e traga os seus amigos. Faça as suas perguntas ao nosso microfone e ouça as respostas na hora. Católicos, protestantes, espíritas, materialistas, todos podem participar livremente do diálogo radiofônico do programa No Limiar do Amanhã, Rádio Mulher São Paulo, Rua Granja Julieta, 205, travessa da Avenida Santo Amaro, 730khz.
Perguntas e repostas.
Pergunta nº 7: Sonhos com o dia a dia
Locutor - Professor, a ouvinte Antônia Sanches Barreto, da Rua Bacanga, Vila Carrão, nos escreve dizendo:
Sou espírita há muitos anos. Frequento um centro com “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e as obras de Allan Kardec. Procuro sempre me elevar espiritualmente, mas como o senhor sabe, estamos num plano de provas e resgates. Quando sonho, aparecem fatos que se passaram durante o dia. Será que eu sou muito sensível ou materialista? Não me considero materialista. Não tenho ilusões, porque sei que nada levamos daqui e sim as obras que praticamos, seja boa ou má.
J. Herculano Pires - A senhora pode estar certa de que não é materialista, é evidente. Porque se a senhora fosse materialista, a senhora então não se importaria com problemas espirituais.
A sua sensibilidade deve ser normal, natural. O fato de a gente lembrar nos sonhos de acontecimentos do nosso estado de vigília, dos momentos em que passamos acordados, esse fato é comum, é natural. Todo sonho mistura muito os fatos da vida cotidiana, muitas lembranças dos dias que passaram mais recentes. Não há motivo nenhum para preocupação nesse sentido. Acho que a senhora não tem problema nenhum nesse caso. Deve, isto sim, continuar a frequentar o centro, a ler espiritismo e principalmente a estudar “O Livro dos Espíritos”, por sinal que nesse livro a senhora encontra uma bela explicação sobre o problema do sonho à luz do espiritismo. Justamente por isso, vou lhe fazer um presente de irmão. A senhora receberá “O Livro dos Espíritos”, edição da editora Lake, através deste programa. E a senhora pode procurá-lo a partir de segunda-feira no escritório da Rádio Mulher, à Rua Barão de Itapetininga, 46, 11º andar, conjunto 1.111.
Pergunta nº 8: Dificuldade do espírito em sua manifestação
Locutor - O ouvinte Pedro Arnaldo Ribeiro, da Rua Particular, Tatuapé, nos faz as seguintes perguntas:
Professor, qual é a explicação para a materialização de espíritos em que a entidade se apresenta completamente envolta num véu ectoplásmico, como se tivesse enleada em vários metros de filó? Não seria o caso do não reconhecimento do espírito, porque sempre ele se identifica completamente. Percebe-se que não é uma necessidade intrínseca ao fenômeno, mas sim acidental, porque há casos em que a entidade se apresenta totalmente livre desse véu misterioso.
J. Herculano Pires - As explicações dadas pelos pesquisadores, tanto no campo da meta psíquica como no espiritismo, são as de que quando o fantasma não se completa, não tem a possibilidade de retirar do médium os elementos necessários através disso que o senhor chamou de ectoplasma – e que realmente é a designação metapsíquica do material fornecido pelo médium –, quando o espírito não tem a possibilidade de retirar material suficiente para uma materialização completa, ele se serve desse recurso. Ele se reveste, por assim dizer, de uma espécie de véu que encobre as partes não completamente materializadas, para ele poder se manifestar.
Essas são as explicações que nós temos a respeito desse fenômeno e coincide perfeitamente com o que o senhor diz, que não é um fenômeno constante na manifestação do espírito, mas sim que ocorre de vez em quando de acordo com as circunstâncias. É quando naturalmente o médium não está dispondo do ectoplasma suficiente para uma materialização perfeita ou completa.
Locutor - Quais as precauções para que o fenômeno de materialização possa ser realizado a plena luz sem ocorrer nenhum perigo para o médium? Seria já iniciá-lo à luz ou deve haver outros cuidados?
J. Herculano Pires - Este é um problema também bastante discutido no campo da pesquisa do fenômeno de materialização. E é preciso salientarmos o seguinte: eu não sei que sessões o senhor está frequentando, porque o senhor não diz nada a respeito, mas eu gosto sempre de advertir os nossos ouvintes a respeito. O fenômeno de materialização é o fenômeno que interessa particularmente à pesquisa científica. A mania que se tem no meio espírita de fazer fenômenos de materialização para efeitos doutrinários é errônea.
Quando se trata de doutrina, nós temos as sessões comuns de manifestação psicofônica, ou seja, de manifestação através do próprio médium. Não é necessário, portanto, fazer com que o espírito se materialize para que ele dê uma comunicação ou para que ele nos traga algum auxílio. Isso é um erro, um erro que tem resultado em muitos lugares no meio espírita, no aparecimento de mistificações lamentáveis. Porque quando os espíritos não estão em condições de se manifestar materializados e o médium sentindo a pressão ambiente, o interesse dos presentes pela manifestação materializada, ele é levado muitas vezes inconscientemente ou semi-conscientemente a mistificar uma materialização que na verdade não existe. Isso é muito auxiliado pela escuridão reinante no ambiente dessas sessões.
De maneira que eu sou contrário a sessões de materialização nesse sentido. Não quero dizer que somente cientistas categorizados podem fazer pesquisas da materialização. Não. Também espíritas que tenham conhecimento científico do assunto podem fazer essas sessões. Mas são sessões experimentais. Não são sessões propriamente doutrinárias. São sessões que tem por finalidade descobrir inclusive as leis que regem o fenômeno da materialização e ver também até que ponto essas materializações podem se processar e quais as consequências que decorrem dela para os médiuns e para os assistentes. São sessões, portanto, de pesquisa científica. Não podem ser sessões normais em centros espíritas ou grupos espíritas.
Apesar disso, sabemos que várias pessoas fazem essas sessões, mas temos esperança de que pouco a pouco se compreenda esse problema no meio espírita.
No tocante ao problema da luz, que é também bastante discutido, como dissemos, é preciso observar o seguinte: há médiuns que não podem produzir fenômenos à plena luz. Eles necessitam de uma cabine escura num canto da sala onde não se faça luz para que ele produza a emanação do ectoplasma. Então esses médiuns não são aptos a produzir materializações em plena luz. Mas nem por isso é preciso que as sessões sejam feitas em escuridão completa. Para isso é que existe a cabine, a cabine escura resguarda o médium de qualquer efeito da luz. Uma vez produzida a materialização, ela pode sair à plena luz.
Costuma-se fazer nas experiências desse tipo a sessão com uma luz vermelha ou uma luz azul, um luz enfim, atenuada pela coloração ou mesmo uma luz de fraca potência para que não haja incidência perigosa da luz sobre o fenômeno em desenvolvimento. Porque o que torna perigoso, neste caso, o efeito da luz, é precisamente a incidência aguda sobre as formas em desenvolvimento na materialização. Porque elas sofrem um impacto com a luz viva e podem realmente afetar o médium ou prejudicá-lo de uma forma ou de outra.
Dessa maneira, para se saber quando se pode fazer uma sessão à plena luz, tem de se começar as experiências com a cabine e com a luz de uma certa coloração ou de fraca potência. Pouco a pouco se vão então obtendo os resultados.
Mas eu insisto em acentuar que essas sessões só devem ser tentadas quando dispomos de pessoas de cultura e de conhecimento científico para poderem realmente aquilatar o que está se passando e orientar os trabalhos de maneira a se obter resultados positivos.
Não adiantaria nada fazermos numerosas sessões de materialização, obtendo fenômenos que não ficam comprovados e que não dizem nada e que apenas servem para satisfazer a nossa curiosidade momentânea. E a curiosidade, neste assunto, é sempre perigosa.
Locutor - E ainda o nosso ouvinte pergunta se o fenômeno de ectoplasmia é controlado pelas entidades materializantes ou por espíritos guias.
J. Herculano Pires - Dizia o Dr. Gustavo Geley, que foi presidente do Instituto de Metapsíquica Internacional de Paris e que foi um fisiologista e um grande pesquisador espírita, dizia o Dr. Geley que nas suas experiências ele verificou a existência do controlador. O controlador do fenômeno, que é um espírito guia, um espírito protetor, que dirige as sessões e orienta os trabalhos. Esse espírito mais elevado controla então os efeitos do ectoplasma. Como o senhor deve saber, o ectoplasma é a matéria que sai do corpo do médium para revestir o espírito a fim de que ele possa aparecer tangível, nesse fenômeno que Kardec chamava de aparições tangíveis.
Assim sendo, nós sabemos que o controle das sessões exige do próprio mundo espiritual uma equipe de trabalhadores especializados. Como podemos nós entregar-nos a esses trabalhos sem termos do nosso lado um controle correspondente de pessoas que conheçam bem o assunto e que nos assegurem a validade dos fenômenos ocorridos?
Locutor - Temos ainda em mãos outra carta deste mesmo ouvinte, Pedro Arnaldo Ribeiro:
Prezado professor, não pretendo fazer crítica, mas desculpe ter que dizer que me causa estranheza a adesão de Chico Xavier ao Festival de Música Jovem a realizar-se no dia 16 do corrente, segundo os anúncios que tenho ouvido nessa emissora, e tomei conhecimento também por um convite que tive em minhas mãos relativo a esse festival. Sei que o escopo é filantrópico e que talvez deva ter caráter popular. Seria melhor que se apresentasse uma peça teatral em pequena temporada ou se realizasse um concerto sinfônico cuja renda teria a mesma finalidade. Mas o que lamento é ver o nome do Chico fomentar uma programação de nível baixo como essa. Parece-me que o Chico não toma qualquer decisão à revelia do Emmanuel. Neste caso, teria ele tido aquiescência do venerável espírito ou foi uma resolução sua?
Os dois programas Pinga Fogo, em que o médium, participou realizaram-se em termos altos e, graças à enorme difusão que tiveram, serviram também para mais prestigiar o nome do homenageado e difundir a doutrina.
Pelos dedos se conhece o gigante. Basta tratar-se de um festival de música jovem para se saber que a categoria é inferior. E ao ler o convite tive uma ideia corroborada nos termos em que foi redigido. Não deixemos que os adversários da doutrina se valham de uma situação dessa como fontes de elementos para seus ataques! Peço uma opinião sua.
J. Herculano Pires - É louvável o seu zelo pela doutrina, louvável o seu zelo também pelo médium Chico Xavier. Mas precisamos considerar alguns aspectos do problema. Primeiro, a sua ojeriza que é uma coisa quase que puramente pessoal contra a música jovem. Por que a música jovem tem de ser de nível baixo? Somente porque a música jovem não acompanha a elevação, por exemplo, de uma música clássica? Mas é um esforço da juventude atual no campo musical. E a música é sempre uma forma de transcendência!
O espírito através da música se eleva. Mesmo quando essa música se banalize tratando apenas de problemas do momento em que nos encontramos.
Mas nós sabemos que a música jovem não é toda assim. Há muita e boa música jovem. Portanto, um festival de música jovem não deve nos dar impressão de que estamos diante de algo impróprio para o espiritismo.
O senhor fala num concerto sinfônico, num espetáculo teatral, e por que desprezar a apresentação de um cantor jovem, conhecido, aplaudido, amado, estimado em todo Brasil e inclusive vitorioso no exterior? Que haveria contra Roberto Carlos? Simplesmente por ele cantar música jovem, deveríamos afastá-lo das manifestações espíritas? Não. Tenha paciência meu prezado amigo, mas não concordo com essa sua posição e acho que Chico Xavier fez muito bem, não de aderir, porque ele não aderiu, mas de aceitar, isso sim, a adesão de Roberto Carlos. O que interessava a Chico Xavier era a promoção de um festival beneficente para obras espíritas que necessitavam de auxilio e de apoio. Ora, o que fez Roberto Carlos foi dar a sua adesão a Chico Xavier nesse sentido e levar a ele a sua colaboração valiosa.
Aliás, sabemos que o festival decorreu de maneira muito feliz. O festival ocorreu mesmo num plano artístico e espiritual que agradou perfeitamente a todos aqueles que compareceram.
Se Emmanuel se opusesse a essa realização, impedindo Chico Xavier de comparecer ou dizendo a ele que não comparecesse, Emmanuel estaria revelando uma espécie de preconceito que não se justificaria num espírito elevado. Nós devemos ter a nossa mente aberta para os processos da evolução do mundo em que nos encontramos. A juventude que aí vem é a população da Terra no amanhã. A juventude que aí está prepara novos caminhos para a evolução espiritual do mundo e traz a sua contribuição.
Se há muitos abusos e muitos extravios entre os jovens, também há muita pureza de intenção, muita beleza espiritual no que muitos deles fazem. E no campo da música, nós só temos de reconhecer que as suas tentativas são tão válidas como as tentativas das gerações anteriores, pois toda mocidade sempre começou procurando renovar o ambiente em que se encontra, e a mocidade que não procura renovar esse ambiente, não é mocidade.
Assim não temos motivo nenhum para negar a Chico Xavier o direito de participar, de estar presente, a um festival dessa natureza, que foi um festival digno em todos os sentidos.
No tocante à linguagem em que foi redigido o convite, é claro que em se tratando de um festival de música jovem, foi usada a linguagem jovem, a linguagem dos jovens atuais. E essa linguagem não têm em si mesma nada de condenável. Apenas são tentativas de expressões novas que os jovens procuram. É mais uma revelação do espírito juvenil, a necessidade que têm os jovens de construírem por si mesmos, graças ao poder criador do espírito humano – poder criador que como sabemos é uma dádiva de Deus ao homem, porque só o homem na Terra tem esse poder –, através desse poder criador, criarem também uma linguagem nova para o futuro.
Nós hoje, por exemplo, não falamos o português quinhentista, nem o setecentista. Nós já falamos um português renovado, transformado pela evolução dos tempos e pela sucessão das gerações. Os jovens de hoje estão procurando construir uma linguagem mais plástica, mais de acordo com suas necessidades de expressão, para o dia de amanhã. Não há motivo nenhum para nós os condenarmos nesse sentido. Pelo contrário, eles merecem até, e isto sim, o nosso aplauso.
No tocante ao que nós poderíamos chamar os protestos que pudessem vir dos adversários ou a condenação dos adversários à doutrina, ao médium e mesmo às instituições espíritas que se beneficiaram com esse festival, o senhor não deve se preocupar muito. Os nossos adversários nunca precisam de pretexto para nos atacar. Eles têm os pretextos a hora que quiserem, porque basta dizerem que nós estamos fora das normas seguidas pelas suas religiões, ou estabelecidas pelas suas instituições, para que eles nos ataquem. Nunca eles precisaram que nós lhes déssemos pretexto algum para que eles nos atacassem.
Locutor - A ouvinte Vera Maria nos telefonou e gostaria que o senhor desse o nome do livro que traz uma oração para cada dia do nascimento das pessoas.
J. Herculano Pires - Eu não conheço esse livro. E acredito mesmo que não exista no meio espírita um livro especial para isso. Porque não há motivos para termos uma oração para cada dia de nascimento das pessoas. Isto deve estar ligado naturalmente à astrologia, não ao espiritismo.
É claro que em certas religiões e em certas crenças, particularmente lá no oriente, usa-se muito este processo. Mas no espiritismo não usamos isso. A prece não depende particularmente de uma forma, de uma determinada estrutura verbal que nós tenhamos de repetir. A prece, para ser válida, deve partir do coração. Deve partir do sentimento, carregada do sentimento que nós realmente alimentamos a respeito daquilo que desejamos alcançar. A nossa fé e o nosso sentimento unidos, e o nosso desejo de dentro do princípio do amor beneficiarmos os outros, são estes os elementos que dão validade e eficácia à prece.
Não importa o dia em que a pessoa nasceu. Isto não tem importância nenhuma. O que tem importância é nós fazermos a nossa prece convictos de que ela terá os seus efeitos, uma vez que será ouvida pelos espíritos protetores e chegará naturalmente as instâncias da espiritualidade onde ela poderá ser recebida e deferida como se fosse um requerimento que nós dirigíssemos a uma repartição oficial aqui na Terra.
Nenhuma prece deixa de ser ouvida e nenhuma prece deixa de ter a sua resposta, embora muitas vezes nós não compreendamos a resposta que recebemos. É preciso, pois, pormos de lado no meio espírita todas essas tentativas de ligar a prece a certos elementos que não correspondem nem ao cristianismo, nem ao espiritismo, que é como sabemos o cristianismo na sua revivescência após todas as transformações que sofreu na sua ligação com as demais religiões do mundo.
O Evangelho do Cristo em espírito e verdade, não segundo a letra que mata, mas segundo o espírito que vivifica.
Abrindo o Evangelho ao acaso, encontramos na epístola de Paulo aos Romanos, no capítulo quatorze do versículo um ao quatro: “mas acolhei o que é fraco na sua fé, não para discutir as suas dúvidas. Um crê que pode comer de tudo, mas o que é fraco come legumes. Quem come, não despreze aquele que não come. E quem não come, não julgue aquele que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio amo está em pé ou cai, mas ele estará firme. porque poderoso é o senhor para o firmar”.
Este trecho da epístola de Paulo aos Romanos nos mostra como a vida humana na Terra se processa de uma forma de repetição constante. Tinha razão, portanto, o Eclesiastes ao dizer que não há nada de novo sob o sol. Vemos que na igreja primitiva do cristianismo, quando o cristianismo era divulgado pelo mundo e quando Paulo, como nós sabemos, o grande baluarte da propagação do cristianismo no mundo inteiro, lutava desassombradamente para que a verdade cristã se implantasse na Terra, nós vamos encontrar nos agrupamentos das igrejas nascentes os mesmos problemas com que hoje nos defrontamos tanto no meio espírita quanto no meio das demais correntes de pensamento cristão. Por que motivo queremos sempre julgar o nosso semelhante? Por que queremos sempre condenar as suas atitudes, a sua maneira de agir, pensando que ele deve agir de acordo com a nossa maneira de agir? Por que isto? Certamente, porque não compreendemos ainda as lições espirituais que recebemos do cristianismo em qualquer das suas escolas vigentes hoje na Terra.
O Evangelho é um só para todas as correntes de pensamento cristão e em todo o Evangelho nós estamos sempre sendo advertidos de que não devemos julgar para não sermos julgados. Mesmo porque o nosso juízo é bastante estreito, bastante pequeno, reduzido ao nosso próprio eu, à nossa visão pessoal, muito particular, para nós sabermos, às vezes, quais são os motivos que determinam certas atitudes e posições dos nossos irmãos. Condenar, por exemplo, aqueles que comem carne ou aqueles que se abstêm de carne, aqueles que bebem vinho ou os que se recusam a tomar qualquer bebida de teor alcoólico, condenar enfim, os que preferem isso ou aquilo e que de acordo com o nosso ponto de vista pessoal, cometem erros na sua escolha.
Tudo isso não é nada mais, nada menos do que violar os ensinos do Cristo e atentar contra o princípio da fraternidade humana, do amor ao próximo, que nós devemos alimentar dentro de nós. As condenações indevidas tornam-se muitas vezes ridículas, porque nós não conhecemos os problemas pessoais de cada um, não podemos penetrar no íntimo de cada um e saber até onde essas pessoas estão apoiadas, para na realidade agir como agem. Há os que condenam no meio espírita, como nos demais meios das correntes cristãs de pensamento e de religião, condenam os outros por qualquer ato, por qualquer atitude, pela maneira com que se vestem, pela maneira com que falam, pela maneira com que andam na rua, pelos amigos que ele escolhe e assim por diante.
Não nos esqueçamos de que os judeus formalistas do tempo de Jesus condenaram o próprio Cristo pelo fato dele sentar-se à mesa com os republicanos e pecadores. E, no entanto, ao fazer isto, Jesus estava abrindo uma nova perspectiva para a humanidade, criando uma nova civilização, iniciando um novo mundo na Terra, um mundo da compreensão espiritual que sobrepujava de muito todos os horrores do paganismo e do mundo pagão, deixando para traz, portanto, uma etapa profundamente dolorosa da evolução [inaudível]. A fim de avançarmos com mais facilidade para um mundo melhor. Ouçamos, pois, o ensino de Paulo como se fosse dito para nós hoje, neste momento em que aqui nos encontramos.
No Limiar do Amanhã, uma tribuna livre.
Antes da nossa reunião pública, amigos da Guanabara mostraram-nos duas reportagens recentemente lançadas sobre a eutanásia. Éramos um grupo de irmãos debatendo assuntos da atualidade e o problema proposto despertou-nos a atenção. Depois de opiniões variadas na conversação em curso, o horário nos chamou para as tarefas da noite.
Aberta a nossa reunião de estudos, O evangelho segundo o espiritismo, com surpresa para nós todos, ofereceu-nos o item 28 do capítulo V, sobre a questão da morte aplicada em nome da benevolência humana.
Diversos companheiros comentaram a lição, após o que Emmanuel, o nosso caro benfeitor espiritual, compareceu com a página Eutanásia e vida.